Os islandeses votaram contra a adesão à União Europeia. Não que sejam contra o projeto europeu, mas porque fazem um cálculo político e económico soberanista numa Europa excessivamente burocrática e menos de pertença.
Apesar de, no rescaldo da crise de 2008, a Islândia ter alterado a sua posição, iniciando uma candidatura à União Europeia em 2009, depois das eleições de 2013, entrou um governo mais eurocético; as negociações foram suspensas e, em março de 2015, Reykjavík informou Bruxelas de que já não pretendia ser considerada país candidato.
O referendo tornou a posição, para já, definitiva. Sobretudo porque a Islândia concluiu, durante muito tempo, que conseguia obter grande parte das vantagens da integração europeia sem pagar o preço político da adesão plena.
O ponto essencial é a pesca. Para um país pequeno, marítimo e cuja independência económica esteve historicamente ligada ao controlo das suas águas territoriais, aceitar a Política Comum das Pescas da UE sempre foi politicamente difícil. A adesão implicaria negociar quotas e partilhar a gestão de um recurso que os islandeses tendem a considerar quase como matéria de soberania nacional. Foi precisamente o capítulo das pescas que ficou entre os grandes obstáculos das (canceladas) negociações de adesão.
Há depois uma segunda razão: a agricultura. Os agricultores islandeses beneficiam de proteção elevada e receiam a concorrência continental e a integração na Política Agrícola Comum. Agricultura e pesca são precisamente duas das áreas que ficam largamente fora do modelo de integração que a Islândia já tem através do Espaço Económico Europeu.
A verdade é que a Islândia já é quase um Estado-membro funcional em muitas matérias. Está no Espaço Económico Europeu, participa no mercado único, é Schengen e pertence à EFTA. Portanto, pessoas, capitais, serviços e grande parte das mercadorias circulam no quadro europeu. A diferença é que não pertence às instituições políticas da UE e não participa plenamente na elaboração das regras que, depois, muitas vezes incorpora.
O que aplica é, portanto, um cálculo muito islandês: “Por que entregar pesca, agricultura, moeda e alguma soberania se já temos acesso ao mercado europeu?”
Há, ainda, um elemento político-cultural resultante da sua geografia: a defesa do soberanismo.
A Islândia é uma democracia liberal, nórdica, fortemente europeia, mas tem uma tradição bastante pronunciada de autonomia nacional. A seu europeísmo não é entusiasta nem federalista, sendo conjugado com a ideia de que um Estado de 400 mil habitantes deve preservar instrumentos próprios precisamente porque, numa organização de 450 milhões de pessoas, terá pouca capacidade de determinar decisões.
Esta realidade coloca uma questão central: terá o projeto europeu de cooperação, solidariedade e sentido de pertença sido esvaziado pela burocracia e pelos interesses económicos dos diferentes setores dos países com maior peso?
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