quarta-feira, 11 de março de 2026

Os idiotas ideológicos

Todos olhamos o mundo com lentes, presos a circunstâncias e padrões culturais. É uma inevitabilidade da condição humana. Mas essa condição só se torna uma limitação quando se torna ideológica e dogmática, quando se traduz numa incapacidade e numa recusa de superação das próprias fronteiras.

Entramos, então, em terrenos de fé, convicção, radicalismo e polarização. Ora, tal é particularmente grave quando aplicado à análise geopolítica, porque as fronteiras ideológicas funcionam como palas, como funis mentais, que impõem alinhamentos irracionais.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Irão

O regime dos ayatollahs é produto da desordem americana no mundo, no seu papel de polícia geopolítico, que tanto garante o Direito Internacional quanto o viola, pela mais velha das razões políticas: recursos. A «Operação Ajax» removeu um governo legítimo, criou uma autocracia laica e plantou o ressentimento anti-imperial e anti-ocidental que abriu caminho para a Revolução Iraniana, de 1979, que instalou um regime teocrático repressivo e sanguinário.

Qualquer simpatia pelo regime dos ayatollahs é uma posição ideológica incompreensível e moralmente inaceitável, já que não se pode defender os direitos das mulheres e das minorias quando o contexto se enquadra na grelha anti-Ocidental e decolonial, e aceitar essas violações a coberto de uma visão extensiva do relativismo cultural.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Vini Jr. e o "bom preto"

O caso de Vini Jr. é uma oportunidade para se falar não só de racismo no desporto, como para se falar sobre o mito da vítima "pura" e do "bom preto".

Enquanto adepto do Real Madrid, reconheço o talento de Vinicius Jr., a sua capacidade de abrir espaços, a sua velocidade, o seu sentido de baliza. Mas não lhe reconheço a identidade "merengue"; é um jogador provocador e conflituoso, que gera mal-estar nos adeptos adversários, que ofende colegas de profissão na condição de adversário, árbitros e adeptos com enorme facilidade. Embora isso possa servir de razão para ser um jogador que poucos apreciem em termos de conduta ética, a verdade é que ele tem sido alvo sistemático de ataques racistas, sendo o capítulo mais recente o jogo no Estádio da Luz diante do Benfica.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Há um coelho à solta no Super Bowl a acelerar a fratura social americana

As guerras culturais emergem quando o consenso social desaparece. Embora sejam realidades latentes, a verdade é que quando há um denominador comum, elas ficam em acalmia, adormecidas, à espera de uma oportunidade para espreitar. Regra-geral, precisam de um elemento económico que traga insatisfação generalizada ou um acontecimento marcante que abale consciências sociais e morais, sejam os direitos LGBT, o aborto, a imigração, os refugiados ou a ideia de Estado-Nação.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Ventura propõe adiar as eleições


No meio do caos climático e da crise humanitária, André Ventura avançou com uma proposta que parece razoável — adiar as eleições presidenciais. Qual o problema, então, de afirmar, de outra forma, "que se lixem as eleições, o que interessa são as pessoas"? 
Em primeiro lugar, porque André Ventura sabe, perfeitamente, que as eleições não se adiam, essa é uma regra da democracia, prevista na Constituição e na Lei Eleitoral. Por essa razão, mesmo durante a pandemia verificou-se a eleição presidencial, a 24 de janeiro de 2021. 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Castro Almeida no papel de Fernando Ulrich

O Ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, a propósito da devastação gerada pela depressão Kristin, sugeriu que as pessoas afetadas usem o salário de janeiro até que no final de fevereiro cheguem as ajudas do Estado, 537 euros por pessoa ou 1074,26 euros por agregado familiar, remetendo o restante para as companhias de seguro.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A esquerda também sabe alimentar fantasmas

 Num comício inflamado, uma frase bastou para expor uma fragilidade recorrente da esquerda contemporânea: a tentação de usar linguagem moralmente satisfatória para o próprio campo, mas politicamente autodestrutiva. As palavras de Irene Montero sobre imigração não só geraram indignação imediata como também ofereceram à direita radical um enquadramento simbólico que esta há muito procura impor. Entre a defesa legítima de direitos e a retórica de confronto identitário, abre-se um espaço perigoso onde más formulações podem eclipsar boas políticas, e onde a esquerda arrisca confirmar narrativas que diz combater.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Imigração, Pertença e Identificação

 Estudo divulgado no jornal Expresso revela que os portugueses se identificam mais com os imigrantes franceses e ingleses a viver em Portugal do que com os brasileiros ou oriundos dos PALOP, porém o sentimento de identificação não é recíproco. 

domingo, 1 de fevereiro de 2026

ICE as a Paramilitary Instrument of Trumpism

America has long lived with the fantasy of an “internal enemy”; under Trump, that fantasy was given institutional form. By turning immigration into the centerpiece of a strategy to destabilize Democratic-led states, the White House instrumentalized ICE as a shock force—authorizing detentions without formal charges, trampling the rule of law, and targeting peaceful protests under the label of “domestic terrorism.” What is at stake is no longer merely a hard-line immigration policy, but a warning sign of an accelerated drift toward an illiberal model of governance, in which the “other” is recast as a foreign body and an existential threat.

The idea of foreign bodies does not originate with the nation-state; the latter merely amplifies an inherently human trait—since the moment humanity asserts itself, the “other” emerges as a danger, as a hostile element to the group. With social sophistication, or what the classics described as the transition from the state of nature to the state of society, and from the nineteenth century onward with the construction of the nation-state, this evolved into an ideology—a political-biological conception of the ingroup and the outgroup—thus planting the seeds of racialist and xenophobic ideas.

Clearly anchored in a rhetoric of affective polarization, Donald Trump turned immigration into a deeper political strategy of intervention in Democratic-led states, seeking to sow social chaos to enable military intervention to “restore order,” thereby paving the way for political change in favor of Republican leadership, particularly those aligned with MAGA. To this end, he instrumentalized ICE, the migration enforcement agency, which under the command of Gregory Bovino became a dangerous, authoritarian–fascist hybrid of Trumpist militia, morality police, and state repression apparatus.

The conduct of ICE—marked by practices typical of fascist policing, including detention without formal charges, disregard for civil rights and the rule of law, and the persecution and denunciation of peaceful protesters labeled as “domestic terrorists”—differs only in degree from Iran’s Revolutionary Guard, and reveals the United States’ accelerated slide toward an illiberal, autocratic regime.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Afinal havia dois André Ventura

 


Assistir aos debates presidenciais de André Ventura é um importante exercício analítico sobre as metamorfoses, contorções e plasticidades de um político hábil da chamada PRR, ou seja, populist radical right. Este último debate com António José Seguro espelha o modo como o líder do Chega vai navegando entre dois estilos: um institucional, que se preocupa com a inclusão social dos imigrantes, muito social-democrata, e um “das arruadas” e das redes sociais, que casa desinformação com populismo barato.

É verdade que o primeiro, seja competência que lhe é devida, poderia dar um grande contributo à República e à democracia, mas André Ventura optou por priorizar o segundo como plataforma de rápida ascensão. A culpa, no final, não é dele – é dos partidos históricos que se tornaram máquinas fechadas e de renovação interna, sem ligação à sociedade civil e aos ressentimentos dos vários setores sociais.

O ponto, aqui, porém, não é esse – a dúvida que se suscita é a de saber se André Ventura manterá a moderação estratégica para capturar o voto ao centro-direita, ou se optará, mais tarde ou mais cedo, por apenas arregimentar os “seus” e mobilizá-los com um discurso “contra o sistema”.

E se por acaso tem a sorte, ou o azar, de ser eleito? Qual André Ventura será presidente da república? A minha apostaria seria numa versão Giorgia Meloni. Mas é pouco provável que venhamos a testar a hipótese.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

14.000 sem-abrigo em Portugal

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Os últimos dados revelam a existência de mais de 14.000 pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal,  número que tem vindo a crescer de forma consistente, ano após ano. Esta curva de crescimento não é um acidente estatístico nem uma fatalidade inevitável. Pelo contrário, é um sintoma político e social, sobretudo quando surge associada, não tanto a problemáticas psicológico-psiquiátricas, mas à precariedade laboral, aos rendimentos insuficientes e à erosão das redes de proteção.

A verdade é simples e dura: quando o trabalho deixa de garantir dignidade, quando a remuneração não chega para uma renda, quando a instabilidade se torna regra, quando a vida se organiza em torno do “desenrasca” permanente, a exclusão deixa de ser uma exceção ou uma margem de erro. Passa a ser um resultado previsível de um sistema que combina mercado de habitação disfuncional, serviços públicos incapazes de responder com rapidez e escala, e políticas que não travam a queda antes do fundo.

Nessas condições, o sem-abrigo não é apenas uma tragédia individual: é um problema estrutural de um capitalismo errático, que tolera a concentração de riqueza desmesurada num número ínfimo de pessoas ao mesmo tempo que empurra milhares para a vulnerabilidade. Um país mede-se pelo bem-estar dos mais pobres e não pela prosperidade dos mais ricos.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

DGS: a SIDA não escolhe cor

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Esta campanha é, originalmente, da Joint United Nations Programme on HIV/AIDS e foi replicada pela DGS. A campanha e republicação espelha dois erros:

1. O recurso a banco de imagens de forma acrítica, uma vez que se trata de uma imagem que transmite ativismo, protesto ou ação de rua.

2. Uma total falta de noção das leituras racializadas que permite. Ou seja, ainda que a intenção fosse ter uma campanha “inclusiva”, a verdade é que em temas sensíveis o uso de grupos racializados funciona como violência simbólica, já que associa tais grupos (neste caso) a uma doença, deixando a mensagem de que a SIDA é um problema das populações negras.

A big fail!

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Espanha: até quando “bella ciao”?

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Como uma fórmula química precisa e eficiente, os valores nacionalistas iliberais que formam a ideologia nativista — a defesa das identidades culturais e biológicas nacionais — fundiram-se com o reality show contínuo das redes sociais. O resultado é a criação de influencers que se alimentam do algoritmo e o alimentam com soundbites, numa reciprocidade que gera milhões de seguidores: militantes acríticos de notícias falsas, distorções, radicalismos morais e soluções para lá do muro da democracia.

Assim é o caso de Luis Pérez Fernández, conhecido como Alvise Pérez, uma versão espanhola de Charlie Kirk, que emergiu nas redes sociais através do apelo reacionário e da exploração das chamadas “baixas emoções” populares.

Nas eleições europeias de 2024, Alvise concorreu liderando uma lista independente (agrupación de electores) sob a designação “Se Acabó La Fiesta” (abreviado SALF), tendo eleito três eurodeputados.

A designação adotada é uma tradução cirúrgica do discurso populista de direita radical que se vem consolidando, explorando as falhas da globalização e da democracia liberal em responder às mudanças sociais, económicas e demográficas aceleradas, deixando largas fatias da sociedade desprotegidas ou com uma sensação de insegurança económica permanente. “Se Acabó La Fiesta” significa que é tempo de pôr cobro ao arraial de corrupção que a democracia tem representado, uma exploração falaciosa da nostalgia dos períodos autoritários, que permite a confusão entre falta de acesso à informação com ausência de corrupção.

Como parte desta direita radical internacional, Alvise aposta no populismo antissistema combinado com o iliberalismo moral e o liberalismo económico radical, defendendo menos impostos e maior fechamento social.

A sua retórica agressiva, difamatória e conspirativa mostra que está a disputar terreno ao “vox”, procurando uma ultrapassagem pela direita ao partido de Santiago Abascal, defendendo uma política de deportação de imigrantes ilegais sem paralelo.

Na sua apresentação da candidatura do seu movimento às próximas eleições legislativas, a terem lugar em 2027, num verdadeiro comício populista e messiânico, característica desta direita de feição MAGA, Alvise passou por todo o manual nativista iliberal – retórica e imageticamente próximos do fascismo –, declarando que “Espanha será livre ou não será”, e defendendo que “os partidos tradicionais morreram” e que “o Estado deve ser devolvido aos cidadãos honestos”.

Perante o minguar da esquerda, que se suicidou nas políticas microidentitárias, com o PP pressionado, o PSOE desgastado, Espanha prepara-se cada vez mais para uma disputa entre radicalismos de direita. A pergunta que se impõe é: até quando o “bella ciao” será capaz de aguentar este apelo generalizado ao nativismo?

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

The US Culture War against Europe

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“I hate to say that I told you so, but I told you so.” It may seem self-serving to appeal to one’s own foresight, but in the face of facts, it becomes inevitable.

Since 2018, I have been focusing on the so-called “culture wars”, a phenomenon rooted in the clash between so-called “conservatives” and “progressives” around moral issues such as abortion, the role of religion in society, same-sex marriage and other LGBT rights, gender identity, immigration, or national identity. These differences generate extreme polarization, amplified by social media, and translate into a genuine struggle for cultural hegemony at the heart of our societies.

In the face of the rise of a cultural left, which abandoned workers’ struggles to concentrate on identity-based causes and whose values gradually became dominant within social institutions, there emerged an inevitable reaction in the opposite direction—the so-called “cultural backlash”, a political response promoting ethnonationalist values.

This brings us to the recent report by the European Council on Foreign Relations (ECFR), in partnership with the European Cultural Foundation, which states that Donald Trump is waging a “culture war” against liberal democracy in Europe, fostering an ideological shift toward nationalist and illiberal values.

A report that is not only unsurprising but also belated. For quite some time, Europe has been the privileged stage for illiberal experiments, reopening old wounds on a continent scarred by the traumas of nationalism and authoritarianism. The political transformations that unfolded in Europe after the 2008 financial crisis and the 2015 refugee crisis are paradigmatic of the electoral drift toward what political scientist Cas Mudde has called the “far right.”

The instrumentalization of economic resentment in favor of an ethnic and religious nationalism—directed against immigrants, the left, and multiculturalism—resonates deeply with the emergence of nationalisms in the 1930s, the results of which are all too well known.

Yet Le Pen, Orbán, Fico, Farage, Meloni, or Wilders are not merely the result of MAGA-style ideological channelling of resentment, as the report suggests. In fact, the “culture war” Trump is now waging against European institutions, the multilateral order, the values of fundamental rights grounded in the principle of human dignity, and the foundations of the liberal rule of law, began with Putin. And here the report falls short.

It is precisely with Vladimir Putin that the seeding of racial and religious nationalism in Europe begins—a process that culminates in the war in Ukraine. Let me explain: Putin viewed NATO’s eastward expansion not only as a geopolitical issue, but as a civilizational one. Conceiving Russia as its own civilization, based on a distinct cultural and religious identity, Byzantine in orientation and czarist in spirit, Putin regarded NATO’s presence on his border as a civilizational threat—representing the advance of liberal democracy and its inclusive values, which undermine Russia’s spiritual order with sexual freedom, women’s emancipation, and LGBT rights.

It was precisely to confront liberal democratic values that Putin financed the European radical right, promoting an illiberal order whose Western epicenter became Orbán’s Hungary.

Trump’s “culture war” against Europe is therefore part of a broader cultural war that unites a nationalist international of authoritarian inspiration, neofascist in kind. The exaltation of a nationalist ideal of economic, industrial, cultural, and geopolitical closure is a project that binds Trump and Putin with the same objective: to dismantle Europe’s human rights order and its liberal democracy from within.

Europeans would do well to remember the old maxim: those who fall asleep in democracy, wake up in dictatorship.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Quem era Charlie Kirk, o rosto do ativismo conservador radical americano?

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O seu ativismo conservador radical começa no liceu, através do envolvimento na política local. Porém, a viragem acontece na Universidade, na Harper College. Em linha com o chamado cultural backlash, isto é, o movimento culturalmente reativo face ao progressismo, Kirk via as universidades americanas como espaços de doutrinação, cadeias de transmissão de ideias progressistas, de forma totalizadora. Esta visão conservadora, que condena a existência de um suposto «marxismo cultural» a dominar a sociedade americana, assenta numa leitura invertida da teoria gramsciana de «hegemonia cultural». 

Ou seja, Kirk foi inspirado por uma corrente de nova direita, culturalista, que olhou para o avanço acelerado do progressismo, associada à esquerda culturalista, e, relendo Gramsci, considerou que para reconquistar a hegemonia supostamente perdida para a esquerda culturalista, teria de começar pela cultura, através de intelectuais orgânicos. É nesse papel que Kirk se viu e atuou.

Assim, em 2012, ainda com 18 anos, cofundou, com Bill Montgomery, a organização Turning Point USA (TPUSA), cujo escopo era a promoção de valores conservadores em campi universitários, através de ações, em especial debates, palestras e distribuição de informações com panfletos. 

Em 2019, Kirk funda outra organização, Turning Point Action (TPAction), que juridicamente contorna as limitações da TPUSA, agindo como braço político, envolvendo-se em campanhas políticas locais e nacionais, recrutamento porta-a-porta de jovens, bem como o movimento “Students for Trump” para as eleições de 2020. 

O seu ativismo incidia em ações públicas pelo país, como os debates nos campi universitários, com o formato “Prove Me Wrong”, e uma intensa representação mediática, sobretudo através das redes sociais e do seu podcast “The Charlie Kirk Show”. 

Os temas

Kirk rapidamente se tornou num dos rostos mais emblemáticos do conservadorismo radical, a hard-right, e do movimento MAGA. O seu foco era o nacionalismo cristão, defendendo uma clara convergência entre Estado e confessionismo, com os valores cristãos a deverem orientar a moral social e política. Essa visão praticamente teocrática da vida política e social, levava-o a tomar posições como a condenação absoluta do aborto, em qualquer circunstância, considerando-o crime gravoso, chegando a colocar a questão num plano equitativo ao holocausto. Esta posição reflete a forma como o conservadorismo radical soube recuperar a retórica inflamada da era da ascensão do fascismo. 

Também em relação aos direitos LGBTQ+, Kirk progressivamente adotou uma posição tipicamente da reação cultural do nacionalismo radical, vendo no avanço dos direitos das minorias sexuais uma agenda política para colocar em causa a família tradicional. Essa progressão de uma posição mais moderada, que admitia os direitos LGBTQ+, porém rejeitava a imposição de uma política de linguagem típica do progressismo radical “woke”, para uma posição mais concordante com o nacionalismo cristão, traduz a forma como Kirk foi hábil a navegar a onda nacionalista MAGA. 

Sobre a imigração, outro tema central para a direita radical, Kirk adotou uma visão muito crítica, apoiando políticas restritivas de entrada e de controlo, fazendo uso de uma linguagem alarmista sobre “invasão” e perigo criminal, concordante com a teoria da “grande substituição” em voga na direita radical europeia. 

Outro tópico fraturante na sociedade americana é as chamadas políticas DEI, ou seja, Diversidade, Equidade e Inclusão, desenhadas para corrigir falhas sistémicas da sociedade americana contra minorias raciais, e que pelas mudanças demográficas no país começaram a ser vistas como programas políticos da esquerda contra a maioria branca, entrando no eixo da teoria da “grande substituição”. 

Vírus da China

Kirk ganhou grande visibilidade durante a Covid-19, espalhando desinformação, críticas à OMS, promovendo a hidrocloroquina, e falando de um “vírus da China”, como parte de uma luta política antecipada do trumpismo. Durante esse período, fez intensa campanha contra os confinamentos, vendo-as como políticas de controlo estatal. 

Legado

O trabalho de doutrinação radical cristã de Kirk permanecerá através da Turning Point USA, agora liderada pela sua mulher. Donald Trump, que foi um grande beneficiário do trabalho de Kirk, que mobilizou milhares de jovens para o movimento MAGA, aproveitou a sua morte para lançar uma política de perseguição a organizações e movimentos progressistas, numa verdadeira “caça às bruxas” ao estilo da guerra fria.  

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Populismo Incendiário

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Desde que Ramalho Eanes andou a combater incêndios com um ramo de oliveira que se diz que é preciso retirar lições, fazer reflexões e melhorar a resposta aos incêndios. Passaram-se mais de 30 anos. 

Essa realidade apenas reflete a natureza da nossa comunidade, que já diziam os romanos que não se governa nem deixa governar. 

De lá para cá juntámos mais uma camada, a do populismo, que não obstante sabermos que os incêndios têm causas multifatoriais, que incluem a desertificação do interior e as alterações climáticas, encontra sempre uma solução ao virar da esquina, sobretudo no papel de oposição — o governo é incompetente e é preciso aumentar as penas (o chamado populismo penal). 

O combate aos incêndios em Portugal continua a ser, mais do que um problema técnico, um espelho político da nossa incapacidade coletiva: preferimos respostas fáceis e punitivas à difícil tarefa de transformar a paisagem, investir no interior e planear a longo prazo. Enquanto persistirmos nesse ciclo — de indignação sazonal, populismo penal e esquecimento até ao próximo verão — continuaremos a confundir castigo com prevenção e a perder a oportunidade de encarar os incêndios como aquilo que realmente são: uma questão estrutural de território, governação e comunidade.

Não se trata de descartar penas mais severas em casos extremos, mas de reconhecer que a verdadeira eficácia está em garantir o cumprimento efetivo das condenações já previstas e reforçar a vigilância — com medidas como a monitorização eletrónica nos meses de maior risco — em vez de recorrer ao conforto enganador do populismo penal. 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

El Salvador e a sedução do autoritarismo

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Nayib Bukele não é um nome sonante na política internacional, mas é um caso interessante e importante para acompanharmos o avançar rápido do iliberalismo de direita, num eixo que agora vai de Moscovo a El Salvador, tendo em Orbán o seu caso emblemático europeu.

Até na sua ascensão, ainda que com contornos locais, não há muito de novidade – cansaço com a democracia bipartidária que não foi capaz de resolver os graves problemas económicos e sociais, nomeadamente o controlo nacional por parte de gangues de dimensões astronómicas. Os gangues ‘Mara Salvatrucha’ e ‘Barrio 18’ chegaram a controlar 80% do território e a taxa de homicídios atingiu 51 para cada 100 mil habitantes em 2018. 

Bukele, eleito em 2019, terá feito um acordo com os gangues para redução dos homicídios e violência em troca de comodidades especiais na prisão. Facto que nega. Em 2020 Bukele invadiu o Parlamento com militares em 2020 para exigir a aprovação de um crédito para sua política de segurança, apresentando mais um caso na longa tradição de militarização da política na América Latina.  

Através de uma campanha bem orquestrada, em 2021 Bukele conseguiu que o seu partido – Nuevas Ideas – conseguisse o controlo do parlamento, adotando uma política igual a de Orbán, substituindo magistrados e promotores que eram contrários às suas medidas, vendo as mesmas serem aprovadas desde então, afirmando, definitivamente, um Estado iliberal, com uma violação da separação de poderes e do Estado de direito. 

A partir de 2022, adotando uma medida de “regime de exceção”, iniciou a sua guerra aos gangues, com prisões em massa, que permitiram camuflar perseguições políticas, com a Human Rights Watch (HRW) e a Amnistia Internacional a denunciarem tortura a presos políticos. O regime de exceção, vigora, uma vez mais, como manobra político-legal para contornar o Estado de direito em favor de uma autocracia repressiva. 

Embora a reeleição fosse constitucional impedida, os magistrados nomeados pelo seu partido, fizeram uma interpretação abusiva da norma constitucional, o que permitiu a sua recandidatura em 2024, vencendo com 85% dos votos. 

Agora vê aprovada uma emenda constitucional que lhe permite perpetuar-se eternamente no poder, ao suprimir as limitações de mandatos.

O quadro fica completo através da sua relação com Donald Trump, expressa ao manter 252 venezuelanos deportados por Washington na prisão por quatro meses. Este cenário confirma tanto a expansão das autocracias pelo globo, quanto a nova ordem iliberal que sendo um projeto de Putin, se tornou um modelo norte-americano de governação.  

segunda-feira, 14 de julho de 2025

“Witch Hunt”: Trump vs. “Lulism”

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Donald Trump's decision to impose retaliatory tariffs on Brazil in response to Jair Bolsonaro’s prosecution marks a new escalation in the international campaign against Lulism—understood here not only as a political programme, but as a global symbol of a threatened progressive order. To grasp the depth of this confrontation, it is necessary to look back at the history of Brazil–US relations, shaped by geographic proximity and longstanding ideological alignments.

Beginning in the so-called “age of nationalisms,” particularly during the Getúlio Vargas era (1930–1945) and later under President Eurico Gaspar Dutra (1946–1951), Brazil began its long journey of political alignment with the United States. Dutra’s presidency marked the start of a doctrine positioning Brazil as a key player in Washington’s “backyard” during the Cold War. American interference took on more explicit contours with the 1964 military coup that ousted João Goulart—an operation supported logistically and politically by the United States under President Lyndon B. Johnson, known as “Operation Brother Sam.”

This U.S. involvement was rooted in Cold War logic, aimed at curbing the spread of communism—particularly in what Americans viewed as their strategic “southern garden.” It reflected the Monroe Doctrine’s hemispheric hegemony and the National Security Doctrine, which justified interference in sovereign states under the guise of defending democracy and U.S. interests abroad.

With the fall of the Berlin Wall and the wave of democratisation across the globe, Brazil entered a new phase in its relationship with the U.S. during the administrations of José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, and Fernando Henrique Cardoso. This was a period marked by cooperation, economic liberalisation, and adherence to the principles of the Washington Consensus, as Brazil embraced globalisation.

The era of Luiz Inácio Lula da Silva ushered in a new chapter. Brazil gained significant symbolic capital both within the BRICs—where it emerged as a rising economic power and a voice of the Global South—and during Barack Obama’s presidency, in which Lula was seen as a progressive democratic icon with a strong labour-oriented ethos.

Donald Trump's rise to power amid a broader wave of right-wing illiberalism across the West paved the way for Jair Bolsonaro’s ascent in Brazil. This established a new American–Brazilian ideological axis rooted in shared illiberal values. In the Brazilian case, this was compounded by an explicit nostalgia for the military dictatorship and a symbolic rehabilitation of authoritarianism as a tool of “order” and “patriotism.”

It is within this context that Trump’s new 50% tariffs on all Brazilian imports—set to take effect on 1 August 2025—must be understood. These tariffs, framed as retaliation for Bolsonaro’s prosecution, which Trump has denounced as a “witch hunt,” are not purely economic—they are profoundly political.

This move serves a dual purpose. On one hand, it is an attack on multiculturalism and “cultural Marxism,” of which Lula is a prominent global representative. Brazil has become fertile ground for this ideological clash. On the other, the sanctions appear designed to bolster Bolsonaro’s possible return to power—a figure wholly aligned with Trump’s worldview—reinforcing an American-led axis of political and cultural hegemony in the region. In this way, the use of economic sanctions becomes a tool of ideological coercion, reflecting the increasing overlap between economic warfare and cultural warfare in illiberal regimes.

Brazil is once again a stage for global ideological confrontation. On one side stands the nationalist, autocratic right—Trump, Orbán, Le Pen, and, in different circumstances, Putin and Xi. On the other, multiculturalism and the globalist agenda, now maintained more by institutions than individual figureheads. Within this dynamic, Brazil is not just a mirror, but a laboratory where the battles between liberal democracy and contemporary authoritarianism become more visible—and more acute.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Do Desencantamento ao Reencantamento: A Nova Religiosidade das Ideologias Políticas

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A separação entre Estado e Igreja inaugurou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”. Mas a ausência de uma religião civil nas democracias ocidentais não eliminou a necessidade de sentido transcendental. Pelo contrário, abriu espaço para novas formas de espiritualidade — ora centradas no indivíduo, ora projetadas em ideologias políticas que reencenam o sagrado sob novas roupagens.

A separação entre Estado e Igreja, enquanto marco fundacional das democracias liberais, abriu caminho à secularização das sociedades e àquilo que Max Weber denominou de desencantamento do mundo. Com o declínio da religião institucional como fonte dominante de sentido, assistiu-se à emergência de novos itinerários espirituais — desde a adesão a comunidades religiosas alternativas até experiências individuais de espiritualidade holística, moldadas pelo liberalismo moderno e pela autonomia do sujeito.

É nesse contexto que surge o despertar espiritual da Nova Era: uma espiritualidade personalizada, híbrida, centrada na experiência subjetiva do “eu” como entidade espiritual em constante reinvenção. Aqui, a religiosidade não é institucional, mas vivencial; não é dogmática, mas estética; não é coletiva, mas individualizada e sensível às dinâmicas do mercado espiritual global.

Contudo, paralelamente a esse despertar imaterial centrado no “sujeito-alma”, emergiu um outro tipo de reencantamento — desta vez, político. Nele, o sujeito percebe-se como oprimido ou opressor, e a salvação vem pela denúncia, pela exposição e pela purificação social. Este reencantamento dá origem a formas de religiosidade secular que, embora desvinculadas de Deus, mantêm intacta a estrutura simbólica da religião. O movimento woke é talvez o seu exemplo mais emblemático: confessional, redentor, escatológico.

A sua estrutura remete diretamente ao cristianismo: a culpa como motor de autoflagelação, a expiação como purificação moral, a boa nova que precisa ser pregada aos “ignorantes”, o impulso missionário, o ritual coletivo das marchas e o rito individual das redes sociais, a presença de profetas e eleitos, dogmas incontestáveis e um sentido de pertença espiritual. Não se trata apenas de política, mas de uma liturgia com vocação transformadora e transcendência imanente.

Paradoxalmente, o mesmo padrão pode ser identificado do lado oposto do espectro ideológico. O populismo de direita — sobretudo na sua vertente iliberal — encena igualmente uma religiosidade política: o líder messiânico, o povo eleito, a decadência moral como sinal dos tempos, a nação como corpo sagrado, o inimigo externo como demónio. A retórica política ganha tons apocalípticos. A promessa já não é apenas de ordem ou segurança, mas de redenção.

O que une essas manifestações é precisamente a sua natureza confessional. A política transforma-se num campo espiritual, com as suas ortodoxias, heresias e sacramentos. Em vez de desaparecer, a estrutura simbólica do cristianismo parece reaparecer em novas roupagens — seja nas margens urbanas da Nova Era, nos altares do woke, ou nas catedrais populistas do ressentimento nacionalista.

O reencantamento do mundo é, portanto, um processo em curso. Ele não se limita ao regresso às igrejas por parte dos conservadores, nem se esgota na luta progressista por justiça social. Inclui também o retorno da religião como forma simbólica, como matriz arquetípica, como mecanismo profundo de pertença e identidade. E talvez nos ensine que, por mais secular que se torne o mundo, a necessidade de transcendência — e de liturgia — nunca desaparece. Apenas muda de lugar.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Cultural Appropriation: Who Uses, Owns? Controversial Ideas on Cultural Ownership

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Cultural appropriation is one of the central post-material battlegrounds of the contemporary world. It mobilizes questions of identity and culture, while often overlooking a foundational principle of culture itself: hybridity.

At its core, the concept of cultural appropriation refers to the use of cultural elements—symbols, clothing, hairstyles, cuisine, religion—originating from a minority group by members of a dominant culture. This usage is commonly seen as a form of disrespect and, implicitly, as a claim of ownership over those elements. In a time when culture is highly politicized, the subject demands careful and nuanced analysis.

The very notion of appropriation entails two problematic assumptions:
(i) that there exist authentic, untouched cultures;
(ii) that any use of minority cultural elements by dominant groups is inherently a violation and a sign of oppression.
Let us take each in turn.

Cultural hybridity can be systematically understood as a continuous and dynamic process of mutual fertilization and re-symbolization. It generates new cultural objects, often at the cost of tradition, while preserving the memory of the original ones. But the encounter of cultures—seldom peaceful—is part of the human story. Catholic imagery of saints, ex-votos, and pilgrimages, for example, owes much to Roman civic religion and Celtic spiritual practices. In this light, “authentic” or “pure” cultures—an idea explored early on by Afro-Brazilian scholar Roger Bastide—are a myth. Inauthenticity is, in fact, the hallmark of all cultures. Claims of purity are political acts, rooted in collective memory and identity, and “authenticity” is a social construct.

The second problem—the assumption that dominant groups using minority cultural elements is necessarily an act of oppression—stems from the rise of Critical Theory, particularly its Gramscian threads, which frame all relations in terms of systemic domination and emancipation. Taken to extremes, this perspective fosters a doctrine of absolute and eternal Western guilt. This is particularly evident in the asymmetry of the discourse: the term “cultural appropriation” is rarely invoked when a minority group adopts or reinterprets elements from the dominant culture.

In Woke Racism, John McWhorter notes the contradiction: white people are expected to respect, praise, and elevate minority cultures—but not touch them. This resembles a form of secular religiosity: cultural objects are placed on sacred altars, to be venerated but never used. Yet a white person can (legally and morally) incorporate cultural elements into artistic reinterpretations, culinary fusion, or aesthetic appreciation without necessarily committing a cultural offense. The only justification offered for the claim that a Black person may wear an Italian suit or a Scottish kilt, but a white person must not wear dreadlocks (a hairstyle that has existed in various forms across many non-African cultures throughout history), is that of historical oppression—an idea then crystallized in the notion of cultural appropriation as inherently disrespectful.

That said, the issue is not black and white. Cultural appropriation can indeed constitute symbolic violence. It becomes problematic, for example, when white supremacist movements adopt minority cultural symbols (such as dreadlocks) as emblems; or when dominant groups temporarily borrow minority elements purely for commercial gain; or when Western New Age movements adopt non-Christian religious symbols and strip them of their original meanings. Even pop culture is not immune—consider Marvel’s use of Thor as a superhero, which many argue trivializes a religious deity.

In conclusion, we must draw a necessary distinction between:
(a) a puritanical and politicized idea of cultural ownership, which holds that cultures and their elements belong exclusively to certain groups, and that usage requires permission—thus denying the inherently hybrid nature of culture; and
(b) genuine cultural appropriation, in which the use of cultural elements is so detached or commodified that it distorts or desecrates the dignity and meaning of the original culture.