O governo espanhol mudou o enquadramento da imigração por causa da crise de Ceuta. Não deixou de considerar as necessidades práticas da demografia e do mercado laboral, mas passou a enquadrar numa questão de segurança. E isso é politicamente relevante.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
A crise migratória e o realismo sanchista
domingo, 16 de agosto de 2026
A incómoda discussão sobre migrantes subsarianos
E há uma conclusão desconfortável: uma política migratória pode ser moralmente generosa na intenção e socialmente irresponsável no resultado. Se um Estado admite continuamente pessoas que depois permanecem anos na informalidade, sem emprego regular, sem habitação digna e à margem das instituições, não está necessariamente a praticar uma política humanitária bem-sucedida.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Ainda as casas de banho
A discussão sobre o acesso a casas de banho e outros espaços segregados por sexo tornou-se um dos pontos mais sensíveis das chamadas guerras culturais. Entre o direito à autodeterminação e as exigências de privacidade, segurança e proporcionalidade, o debate expõe uma colisão de direitos que dificilmente se resolve por slogans.
A autodeterminação/identidade de género é um tema que integra fortemente as ditas «guerras culturais», ao centralizar a sexualidade, a autodeterminação e a moral social numa tensão entre progressismo woke e reação ultraconservadora. Para aqueles que a defendem, a identidade de género é uma construção social, algo que se faz e se aprende a fazer. É a teoria da performatividade de Judith Butler. Há boas razões para considerar que a teoria de Butler abusou do pós-modernismo e da sua tendência para a desconstrução como fim em si mesmo. Há inúmeras evidências de que a biologia importa, embora a forma como cada género se comporta socialmente seja também uma evidência de reprodução social. As crianças aprendem por modelagem, isto é, copiando os mais velhos.
terça-feira, 7 de julho de 2026
Porque a cultura nacional ainda importa
A celebração da seleção norueguesa no Campeonato do Mundo trouxe consigo uma imagem inesperada. Depois de cada vitória, os jogadores simulam uma remada viking, evocando uma das figuras mais conhecidas da história e da memória coletiva da Noruega. Um gesto simples, quase lúdico, que rapidamente passou a fazer parte da identidade daquela equipa.
Como acontece tantas vezes, não demoraram a surgir críticas. Houve quem visse na remada uma glorificação de um passado nacionalista, uma romantização da herança viking ou até uma forma de exclusão simbólica.
Mas talvez a questão mais interessante não seja essa.
domingo, 21 de junho de 2026
O regime mudou. Ou mudou a narrativa?
É, por isso, que o memorando de entendimento negociado com o Irão nos é vendido como uma vitória retumbante pelo presidente norte-americano, porque a urgência é maior do que as tecnicidades políticas de um conflito que só por ilusão de glória Trump achou que poderia ganhar.
quinta-feira, 18 de junho de 2026
De Southampton a Belfast: quando a integração falha, o nativismo avança
As sociedades só subsistem havendo “contrato social”, um chão comum assente em normas partilhadas e instituições legítimas que ordenam o caos social em convivência, ordem e previsibilidade. Um dos mitos das sociedades ocidentais da última metade do século XX é o de que sociedades abertas geram sempre inclusão.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Nenhum povo conserva o capital moral da sua dor histórica quando perde a empatia
terça-feira, 26 de maio de 2026
O país que não se vê
O relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da Universidade Nova, é claro: apesar da redução do índice de pobreza em Portugal, persistem desigualdades e um número muito elevado de crianças está abaixo do limiar da pobreza. Idosos e famílias monoparentais estão, igualmente, em risco. Estes dados são preocupantes.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Os idiotas ideológicos
Todos olhamos o mundo com lentes, presos a circunstâncias e padrões culturais. É uma inevitabilidade da condição humana. Mas essa condição só se torna uma limitação quando se torna ideológica e dogmática, quando se traduz numa incapacidade e numa recusa de superação das próprias fronteiras.
Entramos, então, em terrenos de fé, convicção, radicalismo e polarização. Ora, tal é particularmente grave quando aplicado à análise geopolítica, porque as fronteiras ideológicas funcionam como palas, como funis mentais, que impõem alinhamentos irracionais.
quinta-feira, 5 de março de 2026
Irão
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Vini Jr. e o "bom preto"
O caso de Vini Jr. é uma oportunidade para se falar não só de racismo no desporto, como para se falar sobre o mito da vítima "pura" e do "bom preto".
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Há um coelho à solta no Super Bowl a acelerar a fratura social americana
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
Ventura propõe adiar as eleições
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Castro Almeida no papel de Fernando Ulrich
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
A esquerda também sabe alimentar fantasmas
Num comício inflamado, uma frase bastou para expor uma fragilidade recorrente da esquerda contemporânea: a tentação de usar linguagem moralmente satisfatória para o próprio campo, mas politicamente autodestrutiva. As palavras de Irene Montero sobre imigração não só geraram indignação imediata como também ofereceram à direita radical um enquadramento simbólico que esta há muito procura impor. Entre a defesa legítima de direitos e a retórica de confronto identitário, abre-se um espaço perigoso onde más formulações podem eclipsar boas políticas, e onde a esquerda arrisca confirmar narrativas que diz combater.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
Imigração, Pertença e Identificação
Estudo divulgado no jornal Expresso revela que os portugueses se identificam mais com os imigrantes franceses e ingleses a viver em Portugal do que com os brasileiros ou oriundos dos PALOP, porém o sentimento de identificação não é recíproco.
domingo, 1 de fevereiro de 2026
ICE as a Paramilitary Instrument of Trumpism
America has long lived with the fantasy of an “internal enemy”; under Trump, that fantasy was given institutional form. By turning immigration into the centerpiece of a strategy to destabilize Democratic-led states, the White House instrumentalized ICE as a shock force—authorizing detentions without formal charges, trampling the rule of law, and targeting peaceful protests under the label of “domestic terrorism.” What is at stake is no longer merely a hard-line immigration policy, but a warning sign of an accelerated drift toward an illiberal model of governance, in which the “other” is recast as a foreign body and an existential threat.The idea of foreign bodies does not originate with the nation-state; the latter merely amplifies an inherently human trait—since the moment humanity asserts itself, the “other” emerges as a danger, as a hostile element to the group. With social sophistication, or what the classics described as the transition from the state of nature to the state of society, and from the nineteenth century onward with the construction of the nation-state, this evolved into an ideology—a political-biological conception of the ingroup and the outgroup—thus planting the seeds of racialist and xenophobic ideas.
Clearly anchored in a rhetoric of affective polarization, Donald Trump turned immigration into a deeper political strategy of intervention in Democratic-led states, seeking to sow social chaos to enable military intervention to “restore order,” thereby paving the way for political change in favor of Republican leadership, particularly those aligned with MAGA. To this end, he instrumentalized ICE, the migration enforcement agency, which under the command of Gregory Bovino became a dangerous, authoritarian–fascist hybrid of Trumpist militia, morality police, and state repression apparatus.
The conduct of ICE—marked by practices typical of fascist policing, including detention without formal charges, disregard for civil rights and the rule of law, and the persecution and denunciation of peaceful protesters labeled as “domestic terrorists”—differs only in degree from Iran’s Revolutionary Guard, and reveals the United States’ accelerated slide toward an illiberal, autocratic regime.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Afinal havia dois André Ventura
Assistir aos debates presidenciais de André Ventura é um importante exercício analítico sobre as metamorfoses, contorções e plasticidades de um político hábil da chamada PRR, ou seja, populist radical right. Este último debate com António José Seguro espelha o modo como o líder do Chega vai navegando entre dois estilos: um institucional, que se preocupa com a inclusão social dos imigrantes, muito social-democrata, e um “das arruadas” e das redes sociais, que casa desinformação com populismo barato.
É verdade que o primeiro, seja competência que lhe é devida, poderia dar um grande contributo à República e à democracia, mas André Ventura optou por priorizar o segundo como plataforma de rápida ascensão. A culpa, no final, não é dele – é dos partidos históricos que se tornaram máquinas fechadas e de renovação interna, sem ligação à sociedade civil e aos ressentimentos dos vários setores sociais.
O ponto, aqui, porém, não é esse – a dúvida que se suscita é a de saber se André Ventura manterá a moderação estratégica para capturar o voto ao centro-direita, ou se optará, mais tarde ou mais cedo, por apenas arregimentar os “seus” e mobilizá-los com um discurso “contra o sistema”.
E se por acaso tem a sorte, ou o azar, de ser eleito? Qual André Ventura será presidente da república? A minha apostaria seria numa versão Giorgia Meloni. Mas é pouco provável que venhamos a testar a hipótese.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
14.000 sem-abrigo em Portugal

Os últimos dados revelam a existência de mais de 14.000 pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal, número que tem vindo a crescer de forma consistente, ano após ano. Esta curva de crescimento não é um acidente estatístico nem uma fatalidade inevitável. Pelo contrário, é um sintoma político e social, sobretudo quando surge associada, não tanto a problemáticas psicológico-psiquiátricas, mas à precariedade laboral, aos rendimentos insuficientes e à erosão das redes de proteção.
A verdade é simples e dura: quando o trabalho deixa de garantir dignidade, quando a remuneração não chega para uma renda, quando a instabilidade se torna regra, quando a vida se organiza em torno do “desenrasca” permanente, a exclusão deixa de ser uma exceção ou uma margem de erro. Passa a ser um resultado previsível de um sistema que combina mercado de habitação disfuncional, serviços públicos incapazes de responder com rapidez e escala, e políticas que não travam a queda antes do fundo.
Nessas condições, o sem-abrigo não é apenas uma tragédia individual: é um problema estrutural de um capitalismo errático, que tolera a concentração de riqueza desmesurada num número ínfimo de pessoas ao mesmo tempo que empurra milhares para a vulnerabilidade. Um país mede-se pelo bem-estar dos mais pobres e não pela prosperidade dos mais ricos.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
DGS: a SIDA não escolhe cor
Esta campanha é, originalmente, da Joint United Nations Programme on HIV/AIDS e foi replicada pela DGS. A campanha e republicação espelha dois erros:
1. O recurso a banco de imagens de forma acrítica, uma vez que se trata de uma imagem que transmite ativismo, protesto ou ação de rua.
2. Uma total falta de noção das leituras racializadas que permite. Ou seja, ainda que a intenção fosse ter uma campanha “inclusiva”, a verdade é que em temas sensíveis o uso de grupos racializados funciona como violência simbólica, já que associa tais grupos (neste caso) a uma doença, deixando a mensagem de que a SIDA é um problema das populações negras.
A big fail!












