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quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Da Ciência Pós-Moderna à Militância Científica

A ciência moderna, inspirada no Iluminismo, baseava-se na crença de que a razão humana é capaz de transcender os limites da subjetividade e alcançar a verdade absoluta. Essa crença baseava-se na ideia de que os métodos científicos rigorosos, como a observação, a experimentação e a inferência, são capazes de produzir conhecimento objetivo e universal.

O pós-modernismo, por outro lado, questiona essa crença. Para os pós-modernos, a subjetividade do sujeito-cientista é inescapável. Isso significa que todo o conhecimento científico é, inevitavelmente, influenciado pelos valores, crenças e interesses do pesquisador.

Essa constatação leva a uma mudança de paradigma. Se o conhecimento é subjetivo, então não há como separar a ciência da política. A ciência pós-moderna, portanto, assume uma postura militante, com o objetivo de transformar a realidade de acordo com os valores e interesses do cientista.

 

Com efeito, a ciência pós-moderna pode ser vista como uma resposta à crise da objetividade de meados do século XX, tendo por base fatores como (i) o reconhecimento de que a ciência é uma atividade humana, e que, como tal, está sujeita aos mesmos vieses e preconceitos que qualquer outra atividade, (ii) o desenvolvimento de novas formas de conhecimento, como as ciências sociais e as ciências cognitivas, que desafiam a ideia de que a ciência é uma forma de conhecimento superior, (iii) o uso da ciência para justificar agendas políticas e ideológicas, o que coloca em dúvida a sua neutralidade.

Vale reconhecer que a ciência pós-moderna oferece uma perspetiva diferente sobre a ciência, postulando a subjetividade do conhecimento científico, mas não a vendo como um problema. Pelo contrário, vê a subjetividade como uma oportunidade para tornar a ciência mais inclusiva, através da presença de perspetivas de grupos considerados marginalizados e oprimidos, e de outras ontologias mais tradicionais-espirituais, bem como uma ferramenta capaz de transformar estruturas de opressão social, sendo que a ciência deve ser usada para promover a justiça social e o bem-estar humano.

Por outro lado, esta postura metodológica conduz a um relativismo tendencialmente exacerbado, donde o conhecimento é inexistente e a ciência uma falácia, pelo que qualquer texto, particularmente de grupos tidos por oprimidos, deve ser tomado como ciência. Isto é um desafio ao método clássico de aquisição de conhecimento, colocando em causa a própria produção científica, dado que se tudo é ciência, consequentemente nada é ciência. Isto é, esvazia-se a noção consensual de conhecimento científico.

Ora, ao aliar o pós-modernismo ao ativismo/militância, o cientista passa a produzir um conhecimento engajado, que é pouco aberto à revisão e à crítica, uma vez que se configura como um programa político manifestado a coberto de cientificidade por via de universidades e publicações científicas. 

 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Fernão de Magalhães nos céus de um mundo polarizado



Vivemos um tempo em que a ciência é sobretudo um ato político. Qualquer olhar situado, contextualizado, mas não menos crítico, sobre factos e personagens históricas é desconsiderado, em favor de uma polarização entre os elogios da poeira do nacionalismo e a crítica feroz de quem quer passar sobre a história a vassoura moral. Se a primeira peca por desconsiderar que a história não é linear, e que vozes discordantes da normalidade da época eram ouvidas, que a crítica pode bem ser construtiva e que as tradições e a memória história são uma invenção (ou para usar um bom termo de Triaud, “o passado [é] composto”), a segunda postura é marcada por um quadro teórico em ascendência nas universidades do mundo ocidental, que detém uma vocação ideológica de “teoria final”. Trata-se de olhares antagónicos e pouco prolíferos, considerando que a história é um tecido intricado, onde cada fio representa uma perspetiva única e muitas vezes contraditória, implicando um reconhecimento da diversidade de perspetivas históricas a fim de produzir-se uma compreensão mais completa e justa do passado.



I



sto a propósito da astrónoma Mia de los Reyes, do Amherst College no Massachusetts, que pretende entrar com um processo junto da União Astronómica Internacional para retirar o nome de Fernão de Magalhães das galáxias-satélites anãs na Via Láctea, conhecidas por “Nuvens de Magalhães”. A sua justificação é que se trata de uma homenagem a um "colonialista, traficante de escravos e assassino".



Observemos o mérito da proposta. Em primeiro lugar, as homenagens desta natureza refletem um consenso político e social de um tempo. Tendo presente que, como escreveu Hartley, “o passado é um país estrangeiro, lá faziam-se as coisas de forma diferente”, é aceitável que à luz dos nossos valores atuais se revejam determinadas homenagens, seja por via de estátuas, seja por Via Látea. Nesse sentido, havendo um consenso, é possível e não traz nada de mal ao mundo, que as ditas nuvens recebam outro apelido, ou uma designação neutra, conquanto se tenha presente que tal escolha não pode refletir uma visão política a contrario, isto é, de ajuste de contas com a história, sob pena de receber descrédito em tempo futuro.



Posto isto, convém ter presente as afirmações de Mia de los Reyes, as quais denotam de forma evidente um olhar politizado sobre a história, enquanto seleção de propostas teóricas de um quadro mais alargado da Teoria Crítica, alicerçada sobre uma visão persecutória e reformuladora da história a partir de uma leitura linear e maniqueísta dos acontecimentos, de inspiração pós-marxista, numa dialética pós-material entre “opressores e oprimidos”. Isto porque considerar Fernão de Magalhães “colonialista” implica um olhar – usando um termo de Danto – de “alinhamento retrospetivo”, em que se compõe o passado a partir do conhecimento do presente, desconsiderando, ainda, que o sufixo “ista” se refere a uma posição ideológica que Fernão de Magalhães teria em favor da posse de territórios através de colónias. Ora, à época, o empreendimento marítimo era de expansão de rotas comerciais. Em segundo lugar, a adjetivação como “traficante de escravos” é uma acusação com pouca sustentação, já que existem poucas ou nenhumas evidências do envolvimento de Fernão de Magalhães no tráfico de pessoas para efeitos de escravatura. Terceiro, a designação como “assassino” presumivelmente refere-se aos conflitos vividos nas Filipas (Batalha de Mactan) que resultaram na sua morte. A avaliação desses conflitos é pantanosa, mas podemos tomar por boa que existe uma espécie de culpa moral porque Fernão de Magalhães conduzia expedições a territórios habitados e que os confrontos com habitantes locais são produto de uma investida exógena, portanto, ilegítima.



Assim, como avaliação da proposta, é possível reconhecer mérito, tendo por base o reconhecimento de que vivemos um contexto de necessária avaliação crítica da história, donde não parece despicienda uma renomeação das nuvens com um nome mais consensual como por exemplo Nuvens Mandela, ou um nome neutro, como Nuvens Púrpura.



A proposta de renomeação, quando despojada de uma abordagem ideológica, levanta a questão fundamental de saber como devemos lidar com as homenagens a figuras do passado à luz dos valores contemporâneos. Todavia, a forma como a astrónoma fundamenta o seu pedido reflete um olhar sobre a história de natureza persecutória, revisionista e ideológica, que desmerece a proposta e reforça a polarização social. Este modus operandi só é percebido como meritório dentro – permitam-me a metáfora de contexto – de uma nuvem que paira sobre segmentos dos campus universitários para quem os novos “bens de luxo” são as medidas que visam purificar a sociedade, numa nova forma de ajustes de contas com a história e reprogramação social que refletem um novo “despertar religioso”. É uma pena, porque obrigam a sociedade a jogar “fora o bebé com a água do banho”, em nada contribuindo, portanto, para uma saudável reflexão, discussão e compreensão matizada do passado sem perder de vista um quadro ético humanista.



 

sábado, 11 de novembro de 2023

Feminismo e Batom

Comumente considerado um produto de beleza feminina, símbolo de sensualidade e feminilidade, foi, ao mesmo tempo, durante os dois últimos séculos, um símbolo de empoderamento feminino, sobretudo nas suas cores vibrantes que desafiavam a ideia de recato. No século XIX, por exemplo, as sufragistas usavam batom vermelho para chamar a atenção para a sua causa. Elas acreditavam que o batom era uma forma de desafiar os estereótipos sobre as mulheres como seres frágeis e dependentes. Contudo, os últimos anos marcaram uma viragem profunda na interpretação feminista sobre o batom. Em razão de um enquadramento teórico-ativista de inspiração pós-marxista, o batom passou a ser classificado, por largos setores do movimento feminista, como símbolo do patriarcado e da sua opressão sobre as mulheres e consequente objetificação sexual. 



Em razão desse enquadramento ideológico, emerge uma agenda feminista que determina o que deve ou não deve uma mulher fazer, vestir, aceitar sexualmente, a fim de ser uma «verdadeira» feminista, praticando uma espécie de «opressão do bem», o que em última instância não deixa de ser uma forma de opressão. 



Ora, considero que o combate ao patriarcado não é sobre alguém ditar o que as mulheres devem ou não fazer com seus corpos, mesmo que esse alguém seja uma mulher que se considera representante legítima e líder intelectual do feminismo. O combate ao patriarcado e a defesa das mulheres é sobre a liberdade de escolha, sobre a poder usar ou não usar batom, poder usar ou não usar vestidos, pode ser progressista ou conservadora, poder ser lésbica, bissexual, heterossexual ou assexual. O que implica que não devem ser pressionadas ou julgadas pelas suas escolhas. Por ninguém, sob pena de se encontrarem sob jugos paternalistas.