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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

DGS: a SIDA não escolhe cor

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Esta campanha é, originalmente, da Joint United Nations Programme on HIV/AIDS e foi replicada pela DGS. A campanha e republicação espelha dois erros:

1. O recurso a banco de imagens de forma acrítica, uma vez que se trata de uma imagem que transmite ativismo, protesto ou ação de rua.

2. Uma total falta de noção das leituras racializadas que permite. Ou seja, ainda que a intenção fosse ter uma campanha “inclusiva”, a verdade é que em temas sensíveis o uso de grupos racializados funciona como violência simbólica, já que associa tais grupos (neste caso) a uma doença, deixando a mensagem de que a SIDA é um problema das populações negras.

A big fail!

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Quem era Charlie Kirk, o rosto do ativismo conservador radical americano?

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O seu ativismo conservador radical começa no liceu, através do envolvimento na política local. Porém, a viragem acontece na Universidade, na Harper College. Em linha com o chamado cultural backlash, isto é, o movimento culturalmente reativo face ao progressismo, Kirk via as universidades americanas como espaços de doutrinação, cadeias de transmissão de ideias progressistas, de forma totalizadora. Esta visão conservadora, que condena a existência de um suposto «marxismo cultural» a dominar a sociedade americana, assenta numa leitura invertida da teoria gramsciana de «hegemonia cultural». 

Ou seja, Kirk foi inspirado por uma corrente de nova direita, culturalista, que olhou para o avanço acelerado do progressismo, associada à esquerda culturalista, e, relendo Gramsci, considerou que para reconquistar a hegemonia supostamente perdida para a esquerda culturalista, teria de começar pela cultura, através de intelectuais orgânicos. É nesse papel que Kirk se viu e atuou.

Assim, em 2012, ainda com 18 anos, cofundou, com Bill Montgomery, a organização Turning Point USA (TPUSA), cujo escopo era a promoção de valores conservadores em campi universitários, através de ações, em especial debates, palestras e distribuição de informações com panfletos. 

Em 2019, Kirk funda outra organização, Turning Point Action (TPAction), que juridicamente contorna as limitações da TPUSA, agindo como braço político, envolvendo-se em campanhas políticas locais e nacionais, recrutamento porta-a-porta de jovens, bem como o movimento “Students for Trump” para as eleições de 2020. 

O seu ativismo incidia em ações públicas pelo país, como os debates nos campi universitários, com o formato “Prove Me Wrong”, e uma intensa representação mediática, sobretudo através das redes sociais e do seu podcast “The Charlie Kirk Show”. 

Os temas

Kirk rapidamente se tornou num dos rostos mais emblemáticos do conservadorismo radical, a hard-right, e do movimento MAGA. O seu foco era o nacionalismo cristão, defendendo uma clara convergência entre Estado e confessionismo, com os valores cristãos a deverem orientar a moral social e política. Essa visão praticamente teocrática da vida política e social, levava-o a tomar posições como a condenação absoluta do aborto, em qualquer circunstância, considerando-o crime gravoso, chegando a colocar a questão num plano equitativo ao holocausto. Esta posição reflete a forma como o conservadorismo radical soube recuperar a retórica inflamada da era da ascensão do fascismo. 

Também em relação aos direitos LGBTQ+, Kirk progressivamente adotou uma posição tipicamente da reação cultural do nacionalismo radical, vendo no avanço dos direitos das minorias sexuais uma agenda política para colocar em causa a família tradicional. Essa progressão de uma posição mais moderada, que admitia os direitos LGBTQ+, porém rejeitava a imposição de uma política de linguagem típica do progressismo radical “woke”, para uma posição mais concordante com o nacionalismo cristão, traduz a forma como Kirk foi hábil a navegar a onda nacionalista MAGA. 

Sobre a imigração, outro tema central para a direita radical, Kirk adotou uma visão muito crítica, apoiando políticas restritivas de entrada e de controlo, fazendo uso de uma linguagem alarmista sobre “invasão” e perigo criminal, concordante com a teoria da “grande substituição” em voga na direita radical europeia. 

Outro tópico fraturante na sociedade americana é as chamadas políticas DEI, ou seja, Diversidade, Equidade e Inclusão, desenhadas para corrigir falhas sistémicas da sociedade americana contra minorias raciais, e que pelas mudanças demográficas no país começaram a ser vistas como programas políticos da esquerda contra a maioria branca, entrando no eixo da teoria da “grande substituição”. 

Vírus da China

Kirk ganhou grande visibilidade durante a Covid-19, espalhando desinformação, críticas à OMS, promovendo a hidrocloroquina, e falando de um “vírus da China”, como parte de uma luta política antecipada do trumpismo. Durante esse período, fez intensa campanha contra os confinamentos, vendo-as como políticas de controlo estatal. 

Legado

O trabalho de doutrinação radical cristã de Kirk permanecerá através da Turning Point USA, agora liderada pela sua mulher. Donald Trump, que foi um grande beneficiário do trabalho de Kirk, que mobilizou milhares de jovens para o movimento MAGA, aproveitou a sua morte para lançar uma política de perseguição a organizações e movimentos progressistas, numa verdadeira “caça às bruxas” ao estilo da guerra fria.  

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Populismo Incendiário

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Desde que Ramalho Eanes andou a combater incêndios com um ramo de oliveira que se diz que é preciso retirar lições, fazer reflexões e melhorar a resposta aos incêndios. Passaram-se mais de 30 anos. 

Essa realidade apenas reflete a natureza da nossa comunidade, que já diziam os romanos que não se governa nem deixa governar. 

De lá para cá juntámos mais uma camada, a do populismo, que não obstante sabermos que os incêndios têm causas multifatoriais, que incluem a desertificação do interior e as alterações climáticas, encontra sempre uma solução ao virar da esquina, sobretudo no papel de oposição — o governo é incompetente e é preciso aumentar as penas (o chamado populismo penal). 

O combate aos incêndios em Portugal continua a ser, mais do que um problema técnico, um espelho político da nossa incapacidade coletiva: preferimos respostas fáceis e punitivas à difícil tarefa de transformar a paisagem, investir no interior e planear a longo prazo. Enquanto persistirmos nesse ciclo — de indignação sazonal, populismo penal e esquecimento até ao próximo verão — continuaremos a confundir castigo com prevenção e a perder a oportunidade de encarar os incêndios como aquilo que realmente são: uma questão estrutural de território, governação e comunidade.

Não se trata de descartar penas mais severas em casos extremos, mas de reconhecer que a verdadeira eficácia está em garantir o cumprimento efetivo das condenações já previstas e reforçar a vigilância — com medidas como a monitorização eletrónica nos meses de maior risco — em vez de recorrer ao conforto enganador do populismo penal. 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

El Salvador e a sedução do autoritarismo

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Nayib Bukele não é um nome sonante na política internacional, mas é um caso interessante e importante para acompanharmos o avançar rápido do iliberalismo de direita, num eixo que agora vai de Moscovo a El Salvador, tendo em Orbán o seu caso emblemático europeu.

Até na sua ascensão, ainda que com contornos locais, não há muito de novidade – cansaço com a democracia bipartidária que não foi capaz de resolver os graves problemas económicos e sociais, nomeadamente o controlo nacional por parte de gangues de dimensões astronómicas. Os gangues ‘Mara Salvatrucha’ e ‘Barrio 18’ chegaram a controlar 80% do território e a taxa de homicídios atingiu 51 para cada 100 mil habitantes em 2018. 

Bukele, eleito em 2019, terá feito um acordo com os gangues para redução dos homicídios e violência em troca de comodidades especiais na prisão. Facto que nega. Em 2020 Bukele invadiu o Parlamento com militares em 2020 para exigir a aprovação de um crédito para sua política de segurança, apresentando mais um caso na longa tradição de militarização da política na América Latina.  

Através de uma campanha bem orquestrada, em 2021 Bukele conseguiu que o seu partido – Nuevas Ideas – conseguisse o controlo do parlamento, adotando uma política igual a de Orbán, substituindo magistrados e promotores que eram contrários às suas medidas, vendo as mesmas serem aprovadas desde então, afirmando, definitivamente, um Estado iliberal, com uma violação da separação de poderes e do Estado de direito. 

A partir de 2022, adotando uma medida de “regime de exceção”, iniciou a sua guerra aos gangues, com prisões em massa, que permitiram camuflar perseguições políticas, com a Human Rights Watch (HRW) e a Amnistia Internacional a denunciarem tortura a presos políticos. O regime de exceção, vigora, uma vez mais, como manobra político-legal para contornar o Estado de direito em favor de uma autocracia repressiva. 

Embora a reeleição fosse constitucional impedida, os magistrados nomeados pelo seu partido, fizeram uma interpretação abusiva da norma constitucional, o que permitiu a sua recandidatura em 2024, vencendo com 85% dos votos. 

Agora vê aprovada uma emenda constitucional que lhe permite perpetuar-se eternamente no poder, ao suprimir as limitações de mandatos.

O quadro fica completo através da sua relação com Donald Trump, expressa ao manter 252 venezuelanos deportados por Washington na prisão por quatro meses. Este cenário confirma tanto a expansão das autocracias pelo globo, quanto a nova ordem iliberal que sendo um projeto de Putin, se tornou um modelo norte-americano de governação.  

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Do Desencantamento ao Reencantamento: A Nova Religiosidade das Ideologias Políticas

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A separação entre Estado e Igreja inaugurou o que Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”. Mas a ausência de uma religião civil nas democracias ocidentais não eliminou a necessidade de sentido transcendental. Pelo contrário, abriu espaço para novas formas de espiritualidade — ora centradas no indivíduo, ora projetadas em ideologias políticas que reencenam o sagrado sob novas roupagens.

A separação entre Estado e Igreja, enquanto marco fundacional das democracias liberais, abriu caminho à secularização das sociedades e àquilo que Max Weber denominou de desencantamento do mundo. Com o declínio da religião institucional como fonte dominante de sentido, assistiu-se à emergência de novos itinerários espirituais — desde a adesão a comunidades religiosas alternativas até experiências individuais de espiritualidade holística, moldadas pelo liberalismo moderno e pela autonomia do sujeito.

É nesse contexto que surge o despertar espiritual da Nova Era: uma espiritualidade personalizada, híbrida, centrada na experiência subjetiva do “eu” como entidade espiritual em constante reinvenção. Aqui, a religiosidade não é institucional, mas vivencial; não é dogmática, mas estética; não é coletiva, mas individualizada e sensível às dinâmicas do mercado espiritual global.

Contudo, paralelamente a esse despertar imaterial centrado no “sujeito-alma”, emergiu um outro tipo de reencantamento — desta vez, político. Nele, o sujeito percebe-se como oprimido ou opressor, e a salvação vem pela denúncia, pela exposição e pela purificação social. Este reencantamento dá origem a formas de religiosidade secular que, embora desvinculadas de Deus, mantêm intacta a estrutura simbólica da religião. O movimento woke é talvez o seu exemplo mais emblemático: confessional, redentor, escatológico.

A sua estrutura remete diretamente ao cristianismo: a culpa como motor de autoflagelação, a expiação como purificação moral, a boa nova que precisa ser pregada aos “ignorantes”, o impulso missionário, o ritual coletivo das marchas e o rito individual das redes sociais, a presença de profetas e eleitos, dogmas incontestáveis e um sentido de pertença espiritual. Não se trata apenas de política, mas de uma liturgia com vocação transformadora e transcendência imanente.

Paradoxalmente, o mesmo padrão pode ser identificado do lado oposto do espectro ideológico. O populismo de direita — sobretudo na sua vertente iliberal — encena igualmente uma religiosidade política: o líder messiânico, o povo eleito, a decadência moral como sinal dos tempos, a nação como corpo sagrado, o inimigo externo como demónio. A retórica política ganha tons apocalípticos. A promessa já não é apenas de ordem ou segurança, mas de redenção.

O que une essas manifestações é precisamente a sua natureza confessional. A política transforma-se num campo espiritual, com as suas ortodoxias, heresias e sacramentos. Em vez de desaparecer, a estrutura simbólica do cristianismo parece reaparecer em novas roupagens — seja nas margens urbanas da Nova Era, nos altares do woke, ou nas catedrais populistas do ressentimento nacionalista.

O reencantamento do mundo é, portanto, um processo em curso. Ele não se limita ao regresso às igrejas por parte dos conservadores, nem se esgota na luta progressista por justiça social. Inclui também o retorno da religião como forma simbólica, como matriz arquetípica, como mecanismo profundo de pertença e identidade. E talvez nos ensine que, por mais secular que se torne o mundo, a necessidade de transcendência — e de liturgia — nunca desaparece. Apenas muda de lugar.