quinta-feira, 28 de maio de 2026

Nenhum povo conserva o capital moral da sua dor histórica quando perde a empatia

Itamar Ben-Gvir, líder do partido de direita radical israelita e ministro da Segurança Nacional de Israel, é o rosto de um sionismo político radical, ultranacionalista religioso e supremacista, que tem conseguido desbaratar a memória judaica do Holocausto, que legou à consciência universal, contribuindo para retomar uma onda antissemita perigosa. A responsabilidade pelo antissemitismo é sempre dos antissemitas; mas governos moralmente degradados oferecem-lhes matéria inflamável. 

Nos últimos dias contribuiu para cristalizar a imagem de uma administração israelita que está longe de representar uma continuidade dos padrões morais e normativos ocidentais no Médio Oriente, ao participar da humilhação dos tripulantes da Flotilha ativista e humanitária que foi intercetada em águas internacionais e cujos participantes foram detidos pelas autoridades israelitas, gravando e divulgando os vídeos. A humilhação pública de detidos, ainda por cima transformada em espetáculo político, é uma das marcas mais reveladoras da política iliberal: o poder deixa de se limitar a punir e passa a encenar a degradação do adversário.

terça-feira, 26 de maio de 2026

O país que não se vê

O relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da Universidade Nova, é claro: apesar da redução do índice de pobreza em Portugal, persistem desigualdades e um número muito elevado de crianças está abaixo do limiar da pobreza. Idosos e famílias monoparentais estão, igualmente, em risco. Estes dados são preocupantes.

De acordo com o relatório, em 2025, 15,4% da população residente estava em risco de pobreza, correspondendo a cerca de 1,66 milhões de pessoas. Isto representa uma descida face a 2024, quando a taxa era 16,6% (pp. 31–32). Mas a esse dado positivo é necessário acrescentar marcadores sociais que mapeiam a pobreza em Portugal. Assim, os grupos onde a pobreza aparece de forma mais estrutural são os desempregados, agregados com muito baixa intensidade laboral, famílias monoparentais, idosos sozinhos e famílias numerosas, a que acrescem as populações de baixa escolaridade e territórios pouco povoados. Neste capítulo, a distribuição regional de pobreza aponta para o Alentejo, os Açores, a zona Oeste e Vale do Tejo e para o Centro como especialmente incidentes. 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Os idiotas ideológicos

Todos olhamos o mundo com lentes, presos a circunstâncias e padrões culturais. É uma inevitabilidade da condição humana. Mas essa condição só se torna uma limitação quando se torna ideológica e dogmática, quando se traduz numa incapacidade e numa recusa de superação das próprias fronteiras.

Entramos, então, em terrenos de fé, convicção, radicalismo e polarização. Ora, tal é particularmente grave quando aplicado à análise geopolítica, porque as fronteiras ideológicas funcionam como palas, como funis mentais, que impõem alinhamentos irracionais.