quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Porque é que a AfD não gosta do Bauhaus?


Não é por causa de uma cadeira. É por causa daquilo que a cadeira representa.

O Bauhaus nasceu na Alemanha, mas tornou-se universal: linhas simples, funcionalidade, arquitectura moderna, circulação internacional de ideias. Para muitos, é uma das grandes contribuições alemãs para a cultura do século XX.

Para sectores da AfD da Saxónia-Anhalt, esse é precisamente o problema. O Bauhaus surge como símbolo de desenraizamento: uma estética moderna, internacional, pouco ligada à ideia de tradição nacional.

É aqui que o caso deixa de ser apenas artístico. A AfD defende uma política cultural mais “patriótica”. Isso pode significar outra hierarquia de apoios, currículos e instituições: menos cultura vista como cosmopolita; mais cultura apresentada como nacional, enraizada e identitária.

Não há prova de que a AfD queira proibir o Bauhaus. O ponto é mais subtil: mudar o seu significado público. De orgulho moderno da Alemanha para símbolo suspeito de uma Alemanha demasiado aberta ao mundo.

E é por isso que o caso justifica atenção. Porque as culturas raramente mudam apenas quando se apagam obras. Também mudam quando se muda a forma como elas são explicadas.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A Islândia quer ser europeia, mas não da UE

Os islandeses votaram contra a adesão à União Europeia. Não que sejam contra o projeto europeu, mas porque fazem um cálculo político e económico soberanista numa Europa excessivamente burocrática e menos de pertença. 
No referendo de 29 de agosto de 2026, os islandeses votaram sobre a reabertura das negociações com a UE. O resultado foi novamente contra a adesão à União Europeia: 52,8% contra e 47,2% a favor, com participação de 82,5% da população.

Verifica-se uma cisão político-social nesta matéria, facilmente compreendida à luz da cultura nórdica e insular da Islândia. O país que goza de uma localização privilegiada no contexto da nova geopolítica do Ártico, na verdade, foi sempre geograficamente isolado do mundo europeu, mas inserido na cultura e solidariedade “viking”. Isso nunca significou olhar para o projeto europeu com desconfiança, mas antes como um sentimento de pertença-ausência forçado pela geografia, não distante do modelo britânico, nessa matéria. O projeto europeu de natureza político-económica foi um produto do pós-II Guerra Mundial para criar paz e cooperação no coração da Europa, isto é, sobretudo entre França e Alemanha. 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A crise migratória e o realismo sanchista

O governo espanhol mudou o enquadramento da imigração por causa da crise de Ceuta. Não deixou de considerar as necessidades práticas da demografia e do mercado laboral, mas passou a enquadrar numa questão de segurança. E isso é politicamente relevante.
No romance de Miguel de Cervantes, Sancho Pança representa o realismo e o bom-senso em contraponto ao idealismo delirante de Dom Quixote, colocando em confronto duas correntes: o quixotismo como sinónimo de idealismo e utopia, e o sanchismo como realismo, colocando a tónica nas possibilidades práticas num mundo de contradições.