O caso de Vini Jr. é uma oportunidade para se falar não só de racismo no desporto, como para se falar sobre o mito da vítima "pura" e do "bom preto".
Enquanto adepto do Real Madrid, reconheço o talento de Vinicius Jr., a sua capacidade de abrir espaços, a sua velocidade, o seu sentido de baliza. Mas não lhe reconheço a identidade "merengue"; é um jogador provocador e conflituoso, que gera mal-estar nos adeptos adversários, que ofende colegas de profissão na condição de adversário, árbitros e adeptos com enorme facilidade. Embora isso possa servir de razão para ser um jogador que poucos apreciem em termos de conduta ética, a verdade é que ele tem sido alvo sistemático de ataques racistas, sendo o capítulo mais recente o jogo no Estádio da Luz diante do Benfica.
Ora, esta situação convoca a reflexão histórica e sociológica sobre os meandros do racismo, nomeadamente através desse lugar do imaginário racista do "bom preto", ou seja, aquela pessoa negra que apresenta uma postura de submissão permanente, contida, que aceita alegre e passivamente a sua subalternidade.
A este imaginário junta-se um outro problema resultante da lógica racista e patriarcal da sociedade ocidental[1]: a necessidade da vítima ser "pura", ou seja, em que uma vítima de racismo ou uma vítima de violação "estava a pedi-las" caso não sejam recatadas, submissas e invisíveis. E isto é um problema social muito sério, porque Vini Jr. pode ser (e é) um jogador cujo comportamento causa incómodo -- dança em frente aos adeptos adversários e ofende persistentemente ao longo do jogo --, mas isso não legitima que seja vítima de racismo. Nem ele, nem ninguém, independentemente de ser a pior das pessoas. O racismo - mesmo como recurso fácil e disponível - está para lá da fronteira do aceitável.
No caso concreto, é difícil provar o comportamento de Prestianni dado que este tapou a boca para falar (o que deixa prever que algo menos simpático terá proferido), salvando-se, o Real Madrid, no testemunho de jogadores do clube, cuja distância não é, todavia, favorável como prova.
Sabemos, contudo, a dimensão xenófoba dos argentinos face aos brasileiros, a rivalidade futebolística, o caldo racista diagonal à sociedade argentina. São dados relevantes, porém, como não gosto da culpa coletiva, é preciso apreciar o caso em concreto até onde for possível averiguar. E, no caso dos adeptos do Benfica, é necessário que sejam subtraídas consequências legais para erradicar tais comportamentos do futebol.
Seja como for, Vini Jr. convoca-nos, como referido, a pensar que as vítimas não precisam ser impolutas, basta que existam para merecer proteção e dignidade.
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[1] Evito a categoria "racismo estrutural" intencionalmente, considerando que ela detém nuances conceptuais e variáveis históricas e geográficas que escapam a este texto.
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