No meio do caos climático e da crise humanitária, André Ventura avançou com uma proposta que parece razoável — adiar as eleições presidenciais. Qual o problema, então, de afirmar, de outra forma, "que se lixem as eleições, o que interessa são as pessoas"?
Em primeiro lugar, porque André Ventura sabe, perfeitamente, que as eleições não se adiam, essa é uma regra da democracia, prevista na Constituição e na Lei Eleitoral. Por essa razão, mesmo durante a pandemia verificou-se a eleição presidencial, a 24 de janeiro de 2021.
Ora, sabendo disto, por que insiste? A explicação é simples e reside na combinação entre populismo e agenda iliberal-autoritária. Populismo porque permite mobilizar as pessoas, ao apelar a uma reação primária e compreensível perante a realidade vivida. Por sua vez, integra a agenda iliberal-autoritária porque traduz uma forma de ver a política baseada na legitimação do líder carismático, que, após eleito, pode dispensar as eleições futuras, uma vez que ele é a solução final para o país.
Ou seja, desvalorizar as eleições é uma forma segura de garantir que a maioria da população aceitará que eleições futuras sejam adiadas (muitas vezes ad æternum) sob uma qualquer justificação circunstancial.
Por fim, adiar as eleições significaria uma semana de campanha permanentemente centrada nas depressões e suas consequências.
© imagem de Jon Tyson.
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