segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Imigração, Pertença e Identificação

 Estudo divulgado no jornal Expresso revela que os portugueses se identificam mais com os imigrantes franceses e ingleses a viver em Portugal do que com os brasileiros ou oriundos dos PALOP, porém o sentimento de identificação não é recíproco. 

Os sentidos de pertença e identificação são fenómenos sociais importantes, relacionados à construção de comunidade entre sujeitos nativos, bem como relevantes nos processos migratórios, evitando ou superando assimetrias culturais e consequentes fenómenos de exclusão social e guetização que podem desembocar em radicalização, sobretudo nas segundas gerações, que se encontram entre mundos e sem sentidos de pertença. 

Esse fenómeno parece estar associado também à psicologia coletiva, aplicando-se a Portugal enquanto todo comunitário, com um debate interno e conflituante entre a vocação ultramarina de relações no quadro da CPLP e a geografia de pertença europeia. Essa realidade leva-nos a adotar um balanço entre estigma e deferência, criando um sentido de superioridade face às comunidades dos países lusófonos - num processo que envolve racismo - e uma inferioridade face aos europeus, traduzindo os primeiros em imigrantes e os segundos em expats, como aparece no Expresso. 

Tudo isso está bem patente, portanto, no estudo, que revela que apenas 2% dos franceses e ingleses residentes em Portugal se identificam com os portugueses e se esforçam para saber a língua, enquanto os imigrantes lusófonos têm uma identificação cultural mais rápida com os portugueses. Por sua vez, os portugueses identificam-se melhor com os povos europeus que os rejeitam, ao passo que rejeitam mais os que melhor se identificam com eles. O sentimento de pertença é, também, partilhado entre comunidades do leste europeu. 

Assim, enquanto há uma língua a fazer pontes, há identificações culturais, económicas e biológicas a criar fronteiras. Não obstante, é preciso considerar os fatores socioeconómicos dos entrevistados, uma vez que - creio - tais dados possam sofrer uma inversão entre sujeitos portugueses de zonas urbanas mais pobres, onde o contacto com comunidades lusófonas é maior e a distância afetiva e de identificação a europeus poderá ser maior. 


© image by Ryoji Iwata

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