quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A esquerda também sabe alimentar fantasmas

 Num comício inflamado, uma frase bastou para expor uma fragilidade recorrente da esquerda contemporânea: a tentação de usar linguagem moralmente satisfatória para o próprio campo, mas politicamente autodestrutiva. As palavras de Irene Montero sobre imigração não só geraram indignação imediata como também ofereceram à direita radical um enquadramento simbólico que esta há muito procura impor. Entre a defesa legítima de direitos e a retórica de confronto identitário, abre-se um espaço perigoso onde más formulações podem eclipsar boas políticas, e onde a esquerda arrisca confirmar narrativas que diz combater.

Irene Montero, do partido Podemos, num comício em Zaragoza, a 31 de janeiro, num momento de grande empolgação política, afirmou: “oxalá possamos varrer os fachas e racistas deste país com gente migrante, com gente trabalhadora”. As declarações caíram como uma bomba, sendo lidas, pelos críticos, como um incentivo aberto à «grande substituição» e à sua expansão mais recente – a ideia de que a esquerda radical, tendo perdido o eleitorado mais pobre para a direita radical, procura “importar” eleitores para se manter viva. 

A força da tese é reforçada pelo contexto das palavras, uma vez que foram proferidas num quadro de defesa da regularização extraordinária (~500 mil pessoas) e de simplificação da aquisição da nacionalização/direito de voto de migrantes já a viver em Espanha. 

Elon Musk foi das vozes mais fortes na reação às palavras, atirando lenha para a fogueira da maior das guerras culturais do nosso tempo: a imigração vs. Estado-Nação. A sua intervenção não acrescenta substância, mas amplifica alcance, um padrão típico das plataformas que transformam controvérsia em capital político.

Embora o porta-voz do partido tenha vindo a público dizer que as palavras eram sobre os fascistas e os racistas e não sobre os espanhóis de forma generalizada, e que o quadro de referência era os direitos políticos de pessoas migrantes e não um apelo à alteração demográfica, Irene Montero deve, pelo menos, tomar consciência de que,

(i) Num texto de polarização social e política, este tipo de discurso reforça a narrativa nativista da direita radical, confirmando o que Anne Applebaum descreve como “zonas cinzentas” onde extremos se alimentam mutuamente;

(ii) Que há um lastro pós-modernista na esquerda cultural que permite a suposição de que estaria a falar de uma substituição populacional, e que é a ideia de que as populações europeias são racistas por inerência; esta generalização moralizante é politicamente desastrosa e empiricamente frágil;

(iii) Que há um outro lastro político da esquerda radical – contrariando os estudos – que afirma que todo o votante na direita radical é, por natureza, fascista. Esta redução moral elimina a possibilidade de reconquista democrática desse eleitorado. 

Portanto, das duas uma: ou Irene Montero correu o risco (mal calculado) de usar a gramática da direita radical para aglutinar o seu campo político, ou, efetivamente, acredita que é melhor ter imigrantes (supondo que estes são naturalmente bons e de esquerda) do que naturais espanhóis “deploráveis”. Ora, esse foi o erro-mor de Hillary Clinton. 

Pela via das dúvidas, vou apostar, para já, na primeira hipótese, para não avançar para uma instrumentalização como foi feito por alguns comentadores. Mas a indulgência analítica não dispensa a crítica política: líderes democráticos têm a obrigação de escolher palavras que não façam o trabalho simbólico dos seus adversários. 

© imagem de Timon Studler

Sem comentários:

Enviar um comentário