As guerras culturais emergem quando o consenso social desaparece. Embora sejam realidades latentes, a verdade é que quando há um denominador comum, elas ficam em acalmia, adormecidas, à espera de uma oportunidade para espreitar. Regra-geral, precisam de um elemento económico que traga insatisfação generalizada ou um acontecimento marcante que abale consciências sociais e morais, sejam os direitos LGBT, o aborto, a imigração, os refugiados ou a ideia de Estado-Nação.
Ora, os tempos que correm têm uma natureza de aceleração histórica, em que as guerras culturais não apenas regressaram, como estão a redefinir os alinhamentos políticos, polarizando a sociedade e ameaçando com uma guerra civil países como os EUA, onde todos os temas acima estão juntos no caldeirão, com especial incidência, neste momento, para o eixo que envolve a questão migratória, a identidade nacional americana e a noção de segurança/estado securitário.Assim, no país onde o ICE se tornou numa polícia política ao serviço das ideias MAGA, ostracizando migrantes e já nascidos no país, com uma ressonância típica do nazismo, a chama das guerras culturais ganhou novo capítulo com a atuação de Bad Bunny no Super Bowl, ao atuar em castelhano e ao invocar a natureza multicultural e multinacional dos EUA.
Como resposta, setores republicanos querem a prisão de Bad Bunny, e as vozes MAGA reclamam de um ataque à identidade americana, de que o Super Bowl é o ex-libris.
Para não aderir a uma euforia multiculturalista e preservar um grau de bom-senso, é preciso reconhecer que a construção de uma identidade coletiva tem de assentar em marcadores culturais que compõem a identidade nacional. O Super Bowl é um desses marcadores que envolvem e expandem o ideal americano da Miss Nevada e do quarterback do liceu.
O problema não é esse imaginário, o problema é quando esse se torna excludente; e isso é uma questão nevrálgica num país com as dimensões dos EUA, que foi fundado numa promessa de integração, diversidade e democracia, mas assentou na morte dos nativos e na escravidão de africanos, um paradoxo fundacional que até hoje tem efeitos sociais.
Em segundo lugar, embora tenha como lema secundário “terras das oportunidades”, esse “sonho americano” foi pensado em termos étnicos, ou seja, as legiões de imigrantes foram sistematicamente tratadas como hostis, sendo aceites numa lógica utilitária para o desenvolvimento do país, mas inconveniente na construção de um Estado-Nação branco e cristão.
O paradoxo adensa-se com a doutrina “Donroe”, ou seja, com a adoção de uma política para a América Latina como geografia de influência e defesa. Quando conjugamos esta política com uma “caça às bruxas” levada a cabo pelo ICE e com a guerra cultural aberta a propósito da atuação de Bad Bunny, chegamos à óbvia conclusão de que os EUA deixaram de ser um país de integração e retomaram o nativismo de força agressiva – taking our country back é afirmar um being born without belonging.
© fotografia Edwin Rodriguez

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