Após a sua condenação por desvio de fundos públicos, a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, comparou a sua luta política à de Martin Luther King Jr., enfatizando a intenção de conduzir uma campanha pacífica e democrática. Num discurso por videoconferência durante o congresso do partido italiano Liga, de Matteo Salvini, Le Pen afirmou: "A nossa luta será pacífica e democrática, e o exemplo vem de Martin Luther King". Ao comparar-se a Martin Luther King, Marine Le Pen reivindica um património histórico que não lhe pertence, não tanto pelas questões raciais, mas sobretudo por Martin Luther King representar uma luta pela dignidade racial e política enquanto Le Pen representa o reforço de uma ideia de cidadania com base na identidade biocultural que exclui, precisamente, as minorias. Esse modelo reforça fronteiras entre "nós" e "eles", minando os princípios universalistas que King encarnava, representando uma tentativa sofisticada de reverter o eixo da vitimização política, um gesto retórico cada vez mais comum entre populistas autoritários.