quarta-feira, 11 de março de 2026

Os idiotas ideológicos

Todos olhamos o mundo com lentes, presos a circunstâncias e padrões culturais. É uma inevitabilidade da condição humana. Mas essa condição só se torna uma limitação quando se torna ideológica e dogmática, quando se traduz numa incapacidade e numa recusa de superação das próprias fronteiras.

Entramos, então, em terrenos de fé, convicção, radicalismo e polarização. Ora, tal é particularmente grave quando aplicado à análise geopolítica, porque as fronteiras ideológicas funcionam como palas, como funis mentais, que impõem alinhamentos irracionais.

Essa postura tem uma dupla tradução:

(a) À esquerda, habita um antiamericanismo primário e uma posição pós-moderna que olha o mundo como dividido entre o Ocidente-opressor e o resto-vítima. Trata-se de uma leitura ideológica e moral, que imagina que a geopolítica não é feita de tensões, interesses e disputas, e que o Direito Internacional não é produto da existência de um superagente que o garante, mas que, pelo contrário, se resume ao imperialismo dos EUA. Este enviesamento implica uma relativização cultural, uma desculpabilização de agentes como o Hamas, Hezbollah, Jihad Islâmica e Houthis, ou da República Islâmica do Irão, desde que sejam forças contrárias aos EUA e a Israel.

(b) À direita, encontramos um malabarismo moral para justificar as ações norte-americanas, como se, para lá dos interesses económicos e das disputas estratégicas entre grandes potências, as ações americanas fossem sempre justificadas e beneméritas. Neste quadro, o Direito Internacional pode ser violado desde que estejam em causa o Estado de Israel, os interesses americanos ou a necessidade de atingir um regime considerado nefasto. Mas com uma assimetria evidente: a reação dos visados não é válida, apenas a ação americana o é.

É assim que nascem os idiotas ideológicos, alinhados com a sua fronteira, com o seu campo, fazendo todo o tipo de contorcionismo para garantir uma “racionalidade” ao seu agente.

Sem comentários:

Enviar um comentário