domingo, 21 de junho de 2026

O regime mudou. Ou mudou a narrativa?

Donald Trump encarna o mundo de Orwell da pós-verdade, em que os factos se submetem à narrativa do momento, e as contingências desse momento são retrospetivas, ou seja, ajudam a recompor a história e a memória.

É, por isso, que o memorando de entendimento negociado com o Irão nos é vendido como uma vitória retumbante pelo presidente norte-americano, porque a urgência é maior do que as tecnicidades políticas de um conflito que só por ilusão de glória Trump achou que poderia ganhar.

Enquanto Donald Trump nos diz que o regime mudou, que é mais moderado, que o Irão já não tem ameaça nuclear, e que tudo está melhor do que nunca, a realidade impõe-nos outro retrato: o regime permanece opressor do seu povo, com execuções em escalada, o Irão sai politicamente capitalizado no plano regional, o programa nuclear será negociado posteriormente, num prazo já a contar, e sem garantias de um acordo melhor do que o de Obama que Trump tanto criticou, e o que temos por vitória é a abertura do Estreito de Ormuz, cuja circulação já era objeto de disputa antes deste desfecho, e que agora o Irão abre e fecha à sua vontade, mediante a atuação regional de Israel.

Mas isso não interessa para nada – Trump disse que “adora a inflação”, aumentou a sua riqueza em milhares de milhões, e controla a narrativa que chega ao seu eleitorado, numa América cada vez mais iliberal. A lição orwelliana foi bem estudada. 

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