A celebração da seleção norueguesa no Campeonato do Mundo trouxe consigo uma imagem inesperada. Depois de cada vitória, os jogadores simulam uma remada viking, evocando uma das figuras mais conhecidas da história e da memória coletiva da Noruega. Um gesto simples, quase lúdico, que rapidamente passou a fazer parte da identidade daquela equipa.
Como acontece tantas vezes, não demoraram a surgir críticas. Houve quem visse na remada uma glorificação de um passado nacionalista, uma romantização da herança viking ou até uma forma de exclusão simbólica.
Mas talvez a questão mais interessante não seja essa.
Porque continuam certos símbolos culturais a mobilizar milhões de pessoas?
Eric Hobsbawm mostrou, há muito, que muitas tradições nacionais são mais recentes do que imaginamos. Foram construídas, reinventadas ou reinterpretadas para responder às necessidades de cada época. Mas o facto de uma tradição ser, em parte, uma construção histórica não a torna artificial nem desprovida de significado. Todas as comunidades políticas constroem narrativas sobre si próprias. Faz parte da sua existência.
A cultura nacional nunca foi um museu. É uma herança viva, permanentemente reinterpretada por cada geração.
Talvez por isso continuemos a precisar dela.
Durante décadas, o debate público concentrou-se, e bem, nos perigos do nacionalismo. A história europeia oferece razões suficientes para essa prudência. O nacionalismo pode transformar-se numa ideologia de exclusão, superioridade e hostilidade perante o outro.
Mas dessa crítica não decorre que toda a identidade nacional seja suspeita.
Pelo contrário.
Quanto mais plurais se tornam as sociedades ocidentais, maior parece ser a necessidade de um património comum capaz de ligar pessoas com origens, religiões e percursos diferentes. As instituições são indispensáveis. O Estado de direito, a cidadania e a Constituição constituem pilares de qualquer democracia liberal. Mas dificilmente bastam para criar pertença.
As sociedades também vivem de símbolos, de memória, de referências culturais, de histórias partilhadas e de pequenos rituais que permitem aos cidadãos reconhecerem-se como parte de uma mesma comunidade política.
É aqui que reside a diferença entre cultura nacional e nacionalismo.
A primeira oferece um chão comum sobre o qual sociedades diversas podem construir integração e confiança. O segundo procura transformar esse património num instrumento de exclusão, definindo quem pertence e quem deve permanecer de fora.
Confundir estas duas realidades tem consequências.
Quando qualquer manifestação de identidade cultural passa a ser olhada com suspeita, abre-se espaço para que os verdadeiros nacionalistas reclamem o monopólio da nação e dos seus símbolos. O centro abandona um património que acaba por ser apropriado pelos extremos.
Talvez a remada da seleção norueguesa diga menos sobre os vikings do que sobre uma necessidade muito contemporânea.
Num mundo cada vez mais fragmentado, as sociedades continuam a procurar formas de se reconhecerem a si próprias.
E talvez isso não seja um problema.
Talvez seja uma das condições da própria vida em comum.


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