terça-feira, 21 de março de 2023

a vez de Enid Blyton



A obra de Enid Blyton marcou a primeira metade do século XX, em particular com as séries "Os Cinco" e "O Clube dos Sete", obras de literatura infantil de aventuras que inspiraram outras gerações seguintes, como "O clube das chaves" ou "Uma Aventura". A obra de Blyton não passou ao lado de críticas, inclusive na época, pelas personagens estereotipadas, que reforçavam estereótipos de género e de classe social, pelo excesso de clichés sociais, bem como por um conservadorismo moral, político e educacional, que reforçava uma ordem tradicionalista e patriarcal, manifestas na defesa da obediência e da disciplina. Apesar disso, a obra de Blyton sobreviveu até hoje, com múltiplas edições em todo o mundo.



 



No entanto, sabe-se que em Inglaterra, no Condado de Devon, inúmeras bibliotecas estão a esconder a obra da autora, em especial as versões mais antigas, sendo necessário solicitar os mesmos, acompanhados de um aviso de linguagem potencialmente ofensiva. Somos, então, convocados para um debate em curso, sobre a pertinência de se proibir ou censurar livros e obras literárias. O argumento central, a favor dessa política de cancelamento literário, baseia-se na perpetuação de estereótipos de género, racismo, xenofobia, gordofobia e preconceitos de diversa ordem, que seriam legitimados pela literatura e que teriam um impacto negativo nas crianças. O argumento não é despiciente, mas, no meu entendimento, padece de dois vícios de substância: primeiro, integra uma luta cultural e espiritual de purificação da sociedade, que visa transformar a mesma por decreto e por censura, acreditando que a mudança nas mentalidades, em direção a uma sociedade mais inclusiva, se faz por campanhas de proibição, censura e cancelamento, sem considerar que essa atitude alimenta uma reação contrária; em segundo lugar, tem o vício de – ao impedir o acesso à informação e à obra – de agir sobre a sociedade de um modo paternalista, infantilizando os demais concidadãos, tomando-os por incapazes de ter um olhar crítico sobre a realidade e a literatura, e, no plano educativo, por fomentar uma geração de crianças criadas numa redoma moral, como “flores de estufa” ou snow flake, julgando que as impedir de ler palavras como “gordo”,  “negro”, ou outras, as educa para a inclusão, quando na verdade, face à realidade social muito mais complexa com que têm de lidar, porque são confrontados com um mundo onde estereótipos e preconceitos prevalecem, se encontram inaptos para a sobrevivência, sendo encaminhados para a angústia e a incapacidade de lidar com desafios.



É curioso, portanto, que o ímpeto moralizador social não raras vezes se faça acompanhar por um modelo educacional permissivo e helicóptero, em que os pais/encarregados de educação deixam de assumir um papel ativo na educação das crianças, estabelecendo regras e preparando-as para os desafios de uma sociedade onde os valores são plurais e conflituantes, onde não basta pedir para ter, para se empenharem numa mudança social por decreto e por mecanismos censórios.



Nesse sentido, parece-me mais útil continuar a permitir o acesso à obra de Enid Blyton e outras, sem censura, acompanhando a leitura de uma contextualização (sobre um período com outras normas e valores) e de uma discussão sobre o carácter problemático de determinados elementos, sem deixar de apreciar o valor literário. Todavia, este parece ser um caminho mais complexo, que exige maior empenho educativo. É muito mais fácil infantilizar os sujeitos e censurar a literatura.



 

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