Itamar Ben-Gvir, líder do partido de direita radical israelita e ministro da Segurança Nacional de Israel, é o rosto de um sionismo político radical, ultranacionalista religioso e supremacista, que tem conseguido desbaratar a memória judaica do Holocausto, que legou à consciência universal, contribuindo para retomar uma onda antissemita perigosa. A responsabilidade pelo antissemitismo é sempre dos antissemitas; mas governos moralmente degradados oferecem-lhes matéria inflamável.
Nos últimos dias contribuiu para cristalizar a imagem de uma administração israelita que está longe de representar uma continuidade dos padrões morais e normativos ocidentais no Médio Oriente, ao participar da humilhação dos tripulantes da Flotilha ativista e humanitária que foi intercetada em águas internacionais e cujos participantes foram detidos pelas autoridades israelitas, gravando e divulgando os vídeos. A humilhação pública de detidos, ainda por cima transformada em espetáculo político, é uma das marcas mais reveladoras da política iliberal: o poder deixa de se limitar a punir e passa a encenar a degradação do adversário.
O episódio gerou condenação internacional, incluindo a de vários governos árabes e islâmicos, e relatos de maus-tratos foram divulgados por ativistas, embora as autoridades israelitas os tenham negado.
O episódio foi, apenas, mais um capítulo da longa atuação do governo de Netanyahu que não pode ser desculpabilizada como resposta ou defesa de Israel no rescaldo dos acontecimentos de 7 de outubro de 2023.
A verdade é que o Estado de Israel, vivêssemos num quadro de normalidade institucional e internacional, teria de ser tratado como um Estado pária, em razão das grosseiras violações dos tratados internacionais e dos direitos humanos em Gaza.
Ben-Gvir pode vociferar que todos os que os criticam são terroristas, numa manipulação discursiva ineficaz. Na realidade, precisa de ter atenção ao efeito de ricochete - ele é o rosto de uma política de Estado que normaliza a intimidação, a humilhação e a violência como linguagem de governo. Não adianta jogar a cartada do “antissemitismo”. Há muito que essa carta deixou de bastar para absolver um governo que confunde segurança com licença moral ilimitada.

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