terça-feira, 26 de maio de 2026

O país que não se vê

O relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da Universidade Nova, é claro: apesar da redução do índice de pobreza em Portugal, persistem desigualdades e um número muito elevado de crianças está abaixo do limiar da pobreza. Idosos e famílias monoparentais estão, igualmente, em risco. Estes dados são preocupantes.

De acordo com o relatório, em 2025, 15,4% da população residente estava em risco de pobreza, correspondendo a cerca de 1,66 milhões de pessoas. Isto representa uma descida face a 2024, quando a taxa era 16,6% (pp. 31–32). Mas a esse dado positivo é necessário acrescentar marcadores sociais que mapeiam a pobreza em Portugal. Assim, os grupos onde a pobreza aparece de forma mais estrutural são os desempregados, agregados com muito baixa intensidade laboral, famílias monoparentais, idosos sozinhos e famílias numerosas, a que acrescem as populações de baixa escolaridade e territórios pouco povoados. Neste capítulo, a distribuição regional de pobreza aponta para o Alentejo, os Açores, a zona Oeste e Vale do Tejo e para o Centro como especialmente incidentes. 

O relatório é, todavia, omisso em termos de marcadores étnico-raciais, o que se revela um problema persistente na análise socioeconómica nacional que nos permitiria avaliar a necessidade/urgência de políticas públicas de combate à exclusão social com base na pertença étnico-racial. O marcador mais próximo é nacionalidade. Em 2024, a taxa de risco de pobreza era 27,6% entre estrangeiros, contra 16,1% entre portugueses

Embora o relatório "Portugal, Balanço Social 2025" não apresente uma medida longitudinal de pobreza persistente, os seus resultados podem ser complementados por dados do EU-SILC sobre transmissão intergeracional de desvantagens. Estes dados permitem observar que a pobreza adulta se relaciona com condições familiares de origem, nomeadamente dificuldades financeiras na adolescência, baixa escolaridade parental e privação habitacional. Assim, a pobreza em Portugal deve ser lida não apenas como insuficiência contemporânea de rendimento, mas também como fenómeno de reprodução social, mediado por educação, mercado de trabalho, composição familiar, território e, em certos grupos, discriminação étnico-racial. 

Ora, isto mostra-nos um país por vezes invisível no plano mediático e em grande medida esquecido no combate político sob o manto dos resultados macro de superação. Portugal continua a ser um país pobre, com grupos sociais especialmente vulneráveis, que incluem crianças nascidas em circunstância de pobreza, famílias destruturadas ou de baixa escolaridade e situação laboral precária, idosos e grupos étnico-raciais. 

No combate político atual, o poblema tem sido a divisão artificial destes grupos em dois: por um lado, a direita radical tem procurado negar o caráter cumulativo que afeta populações racializadas, dando voz aos grupos mais vulneráveis da maioria sociológica; por outro, a esquerda radical cultural tem enfatizado a dimensão intersecional da pobreza e raça, negando as condições dos grupos pertencentes a essa maioria sociológica sob a premissa de "privilégio branco". 

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