domingo, 16 de agosto de 2026

A incómoda discussão sobre migrantes subsarianos

 
E há uma conclusão desconfortável: uma política migratória pode ser moralmente generosa na intenção e socialmente irresponsável no resultado. Se um Estado admite continuamente pessoas que depois permanecem anos na informalidade, sem emprego regular, sem habitação digna e à margem das instituições, não está necessariamente a praticar uma política humanitária bem-sucedida. 

Ontem, as autoridades marroquinas impediram a entrada de cerca de uma centena de migrantes subsarianos em Ceuta, de onde tentariam partir para território continental espanhol. Gostaria de olhar para a questão de um outro ângulo: quando deixamos a questão moral dominar em absoluto, deixamos de tratar o problema e passamos a tratar da virtude, enviando a questão para uma dimensão etérea.

A virtude da política humanitária sobre o dever de acolhimento irrestrito que tem alimentado partes da esquerda europeia encontra-se nessa dimensão, uma vez que não tem por objetivo resolver os problemas das populações migrantes na sua origem, nem aceita reconhecer a primeira e fundamental barreira: a impossibilidade de integração de fluxos migratórios elevados e culturalmente distantes, sobretudo quando se combinam entrada irregular, baixa escolaridade, ausência de redes familiares estáveis, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho formal, barreiras linguísticas e concentração territorial.

 Daqui deriva um problema de integração total: o que fazer com estas populações que não possuem qualificações, são culturalmente distantes e que ficam na situação de fragilidade?  

A verdade é que muitos acabam por ter de sobreviver através da venda ambulante predatória, em várias cidades europeias, em especial turísticas e costeiras, sobretudo de pulseiras e colares. Quem não conhece o esquema começa com «friend, a gift», passando a oferta a transformar-se numa exigência de dinheiro e, por vezes, numa interação intimidatória. Para quem passa repetidamente por isso, a experiência concreta pesa mais do que qualquer discurso abstrato sobre multiculturalismo e relativismo cultural. Mais: torna o discurso sobre integração e diversidade cultural enquanto mérito num discurso ideológico a ser combatido. 

Por sua vez, ignorar esta realidade dos homens subsarianos, por receio de alimentar preconceitos, acaba por ser contraproducente: deixa a direita radical monopolizar um problema que o centro democrático deveria conseguir discutir sem racialização e sem radicalização ideológica.  

É precisamente aí que acho que a política europeia falhou durante bastante tempo: tratou a discussão como se existissem apenas duas posições: acolher é ser humanitário e restringir é ser xenófobo

Falta a terceira via: acolhimento condicionado pela capacidade real de integração. Isto significa fronteiras controladas, decisão de asilo relativamente rápida, retorno efetivo de quem não tem direito a permanecer, acesso rápido ao trabalho para quem permanece, aprendizagem linguística, dispersão territorial quando possível e repressão normal da criminalidade independentemente da origem.

E há uma conclusão desconfortável: uma política migratória pode ser moralmente generosa na intenção e socialmente irresponsável no resultado. Se um Estado admite continuamente pessoas que depois permanecem anos na informalidade, sem emprego regular, sem habitação digna e à margem das instituições, não pratica necessariamente uma política humanitária bem-sucedida. Pode simplesmente estar a deslocar o sofrimento da fronteira para as periferias europeias. Com consequências tanto para as populações migrantes que se guetizam e ficam expostas à reprodução geracional de pobreza e exclusão, bem como a redes de radicalização e terrorismo, quanto para as populações locais que ficam sujeitas a bolsas urbanas perigosas e culturalmente hostis no seu próprio país.  



2 comentários:

  1. Subscrevo inteiramente a lucidez do texto. O debate sobre as migrações foi, durante demasiado tempo, refém de uma estéril "guerra de virtudes", onde a reflexão pragmática era imediatamente catalogada como desvio moral.

    O ponto central que aqui levanta — a diferença entre a intenção moral e a responsabilidade do resultado — é onde reside a verdadeira ética pública. Abandonar pessoas na informalidade urbana, sem condições reais de integração, trabalho digno ou pertença comunitária, não é um ato de generosidade; é uma forma velada de negligência que fragiliza quem chega e desagrega quem acolhe.

    A "terceira via" de que fala, assente no pragmatismo, na capacidade real de absorção e na dignidade do cumprimento das regras de convivência social, é o único caminho para retirar este tema do monopólio dos extremos e devolvê-lo ao centro do debate democrático. O seu texto é pedagógico, urgente e de uma enorme elevação. Obrigado por ele.

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  2. Muito obrigado pelo seu comentário, o qual li com toda a atenção. Espero que volte sempre. cumprimentos

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